Nome da fic: Aberração

Autor: Marck Evans

Pares: Severus Snape/Draco Malfoy

Censura: 18 anos, cenas de sexo e angst.

Gênero: Angst, Romance, Tema Adulto.

Spoilers: Todos os cinco livros

Avisos ou Alertas: Cenas de sexo consensual entre homens e descrições detalhadas sobre hermafroditismo.

Desafio: Resposta ao desafio 13: “Hermafroditos são criaturas raras muito polêmicas, pois têm habilidades mágicas especiais. Temendo discriminação, um aluno consegue esconder sua condição de dois sexos, que teria que ser registrada no Ministério da magia. Snape descobre a natureza dele (a) e mais: apaixona-se por ele (a). Bônus se o hermafrodito for Draco e Lucius o deserdar.”

Resumo: Snape decide-se a ajudar Draco e aos poucos vai descobrindo que os sentimentos entre eles podem ser bem mais intensos.

Agradecimentos: Ptyx, a super betas, e Lili.

Disclaimer: Esses personagens são da JKR, eu só me divirto com eles e não ganho nada a não ser a satisfação de colocá-los em encrenca graves.

Esta fic faz parte do SnapeFest 2005, uma iniciativa do grupo SnapeFest, e está arquivada no site http://oxetrem.com/fest

 

 

 

 

Capítulo I

Transformação

 

A dor no meu ventre me acorda. Pela terceira noite consecutiva, acordo suando frio e encolhido na cama. A dor maldita que me lembra bem a aberração que eu estou prestes a me tornar não me deixa dormir.

Logo que descobri o meu destino, cheguei a pensar em me matar. Mas nem isso salvaria mais o nome dos Malfoys. Meu pai estava certo, eu sou o último e mais patético dos Malfoys.

Outra fisgada, dessa vez nos genitais, quase me faz gritar. Eu sei que isso vai durar horas. Amanhã eu estarei um lixo, mas ninguém vai perceber. Eu não vou deixar.

Estremeço de dor e mordo com força o travesseiro para sufocar meus gritos. Se eu gritar toda minha dor eu acordo Hogwarts inteira.

Faltam ainda seis meses para eu terminar a escola, no entanto minha deformidade vai se manifestar antes disso. A próxima noite vai ser a definitiva.

Meus pais não sabem. Tremo só em pensar o que meu pai faria comigo se descobrisse. Minha mãe morreria de vergonha; não sem antes me punir primeiro.

Outra fisgada me faz sentar na cama. É difícil encontrar posição quando seu corpo está sendo metamorfoseado e parece estar pegando fogo por dentro.

No início do sexto ano descobri minha desgraça. Foi quando começamos a estudar Anatomia Bruxa. A aula tem alunos de todas as casas; afinal são poucos os que escolhem fazer esse curso. É claro que a Sabe-Tudo-Granger escolheu; às vezes me pergunto o que seria de mim se eu não tivesse escolhido estudar isso.

A dor se intensifica mais uma vez. Merlin! É como se passassem uma faca em brasa na região do meu períneo. É como se alguém me abrisse ao meio com essa maldita faca. Sinto o suor frio escorrer pelo meu rosto.

A Granger sempre faz perguntas demais aos professores, mas dessa vez ela foi útil.

Em Anatomia Bruxa estudamos os diversos tipos de alterações, anatômicas ou não, que só bruxos podem ter.

Não teve a menor graça descobrir como um humano pode procriar com um gigante, um veela ou um trasgo. Pelo menos não era tão nojento como eu pensava.

Um breve intervalo na crise de dor me permite descansar o corpo. Minha mente volta àquela maldita aula, quando descobri a grande merda que seria minha vida dentro de tão pouco tempo.

A Professora introduziu o tema com ar solene: Hermafroditas.

Todos os puro-sangue começamos a rir. A gentalha mestiça ou sangue-ruim não conseguia entender.

A idiota da Professora Green nos repreendeu. Eu me lembro bem do ar indignado da Granger quando entendeu o porquê dos risos. Irônico, isso.

No início da aula tudo correu bem. A Professora explicou como os hermafroditas surgem. Nascem aparentemente normais, e poucos dias depois dos dezoito anos as mudanças começam. Os que nasceram em corpo feminino ganham testículos, pênis, próstata e todo o resto, sem perder os traços femininos. Os que nasceram em corpo masculino ganham uma genitália feminina completa.

Bruxos hermafroditas são muito raros e totalmente funcionais em ambos os gêneros. Como se alguém fosse querer ter alguma coisa com uma aberração que tem um pênis e uma vagina!

Nova fisgada no baixo ventre. Prefiro a dor a pensar no monstro em que estou me tornando, mas minha memória não me dá sossego.

Eu me lembro das perguntas de Granger. “Por que os hermafroditas são discriminados?”; “Eles têm alguma habilidade em especial?”;Como se dá a transformação?”; “Como alguém sabe que vai se tornar um hermafrodita?” Droga de garota. Droga de vida. Droga de dor!

Eu tento controlar a respiração, mas está difícil.

Hermafroditas são discriminados porque são uma aberração, sua idiota. A Professora veio com uma conversa comprida sobre preconceitos. Bobagem. Hermafroditas têm realmente uma droga de habilidade. São empatas. É quase impossível mentir para um hermafrodita. Por isso são registrados no Ministério. Para serem convocados, se necessário.

A dor corta minha respiração e me faz ter engulhos. Eu não quero vomitar de novo.

A transformação é violenta. Durante três noites a parte interna do novo aparelho se forma, empurrando o antigo para que se acomodem juntos. Na quarta e pior noite, a nova genitália aparece em definitivo. Duvido que aquelas tolas pudessem imaginar o grau dessa dor.

Enfio as unhas na barriga, na ilusão de sentir menos a tortura que meu corpo se auto-impõe.

Nessas horas eu quase posso ouvir de novo a voz da Professora dizendo que existem sinais que podem indicar a um adolescente que ele é um hermafrodita: um sinal bem específico na parte interna das coxas, cinco pequenas estrelas que surgem por volta dos doze anos. Aos dezesseis, dezessete anos os hermafroditas são realmente bonitos, com um ar levemente andrógino. Nenhum deles tinha visto as estrelas na minha coxa, e nenhum deles sequer pensou que eu poderia ser uma aberração dessas. Nem eu. Mas a professora falou dos sonhos repetidos que começam três anos antes das transformações. Sonhos sempre iguais, sempre a mesma história, sempre o unicórnio dourado correndo junto ao prateado, e se fundindo a ele no final da corrida. Sonhos que eu tinha desde o meu aniversário de quinze anos.

Eu não quis acreditar. Eu ainda não consigo acreditar.

O dia está amanhecendo, e a dor vai passando. Amanhã é a noite definitiva.

Eu fiz dezoito anos há uma semana. Dentro de dois dias eu terei uma vagina. Em menos de quarenta dias eu vou menstruar.

Eu não quero isso. Eu não quero ser esse monstro, essa aberração. Eu realmente deveria ter me matado.

A Professora falou da dor que era essa “passagem”, mas eu nunca pude supor que seria tão grande. E nem que meu futuro seria tão ruim.

Eu não vou deixar ninguém saber disso nunca.

 

 

 

 

Há algo profundamente errado com Draco Malfoy.

Hoje pela manhã, na aula de Poções, ele estava horrível. Acho que fui o único a notar. Anos como espião me tornaram ainda mais atento aos detalhes. Um bônus extra nessa estupidez sem fim.

No meu escritório quase totalmente às escuras, eu repasso o dia enquanto tomo um copo de uísque. De olhos fechados, com a cabeça no espaldar da minha cadeira e o silêncio que nem os fantasmas ousam quebrar, consigo relaxar um pouco.

Habituei-me a essa solidão no final do dia, quando posso analisar os pequenos fatos que compõem o panorama geral.

Tenho observado Draco há bastante tempo, por isso tenho percebido detalhes que outros não veriam. Ele anda cada vez mais tenso. Obviamente ele disfarça, mantendo a postura habitual. Eu não esperaria menos que isso dele. Mas há algo errado. A fuga de Lucius não o alegrou tanto quanto eu imaginaria. Na realidade, Draco pareceu ficar com medo. Ele nem mesmo quis ir para casa no último Natal.

Ele está com algum problema, e está escondendo de Lucius.

Seja o que for, piorou muito nos últimos três dias. Ele está obviamente tomando alguma poção energizante, como se estivesse passando as noites em claro, mas mesmo assim posso ver o profundo abatimento nos olhos dele.

Sempre protegi Draco mais do que minhas outras crianças. Afinal ele é filho do braço direito do Lord das Trevas. No entanto não é só isso. Há algo nele que me fascina.

Não é uma atração sexual, apesar de ele ter se tornado um belo rapaz. Um pouco andrógino demais para o meu gosto, mas belíssimo. Eu ainda não desci ao ponto de me envolver com um dos meus alunos.

No entanto, apesar da beleza, da fortuna e da família importante, ele não tem se envolvido com ninguém, seja com uma garota ou um rapaz. Ninguém.

É estranho.

Manter algum decoro entre tantos adolescentes cheios de hormônios dá muito trabalho a todos chefes de Casa, e a minha não é exceção. Sendo bonito, rico e filho de um homem muito poderoso, Draco deveria ter uma fila de namoradas ou namorados, se fosse o que desejasse. Ele é assediado, já percebi, mas recusa todas as aproximações.

Draco não me parece do tipo assexuado. Ele apenas se esconde.

Na idade dele eu também me escondia. Feio e pobre, eu só tinha meu talento para me garantir. Eu escondia minha natureza apaixonada — tão profundamente apaixonada que sou capaz de me interessar com igual intensidade por um homem ou uma mulher — para evitar o riso.

Esconder-se não é a única semelhança que vejo entre nós dois.

No meu sétimo ano eu era tão solitário quanto ele parece ser. Foi essa solidão que me tornou tão vulnerável a Lucius e, por meio dele, ao Lord das Trevas.

Eu sei que Lucius pretende tornar Draco um Comensal tão logo seja possível. Apesar de todo o medo que ele sente do Lord, ele quer tornar o próprio filho um escravo. Um escravo como eu.

Draco nunca me pareceu ter o estômago para ser um Comensal. Mimado demais. Mas Lucius parece acreditar que seu sobrenome torna o garoto uma sombra dele mesmo. Louco estúpido.

Será que é isso o que Draco teme? Tornar-se um Comensal? Talvez por isso ele estava tão assustado no aniversário dele. Eu liberei uma comemoração pelos dezoito anos de Draco. Apesar do costumeiro ar de enfado estudado, pude ver medo nos olhos dele. Será que o garoto teme se tornar um Comensal e está fazendo alguma coisa para evitar? Isso justificaria o pânico.

Mas quem ele procuraria?

Dumbledore certamente que não. Eu, de forma alguma; até onde ele sabe, sou o capacho fiel de Lucius. Alguma coisa está acontecendo, e ele está sozinho. Exatamente como eu há vinte anos atrás.

Um leve estalo no véu espelho de vigilância [G1] me alerta. Alguém está vagando pelos corredores, e já passa de meia noite.

Pronuncio o feitiço que me mostra o intruso e não posso evitar a surpresa. O garoto que ocupava minha mente até agora está se esgueirando pelo corredor. Ele pára apoiado na parede, parece ter dificuldades em respirar e está vergado como se sentisse uma dor forte.

Talvez eu esteja enganado, e Draco não pretenda fugir de Lucius. Talvez ele só esteja doente e, enfim, tenha resolvido procurar a Madame Pomfrey. Mas isso é pouco provável.

A direção que ele toma, no entanto, não leva à enfermaria, e sim às regiões menos freqüentadas das minhas masmorras. Eu o observo cambalear até uma sala isolada. Ele parece estar sentindo muita dor. Vejo bem a sala onde ele entra e vou atrás.

Mesmo que Draco tenha enfeitiçado a porta para não abrir a um simples Alorromora, eu posso entrar facilmente. Faz muito tempo que Albus me deu controle total das portas das masmorras.

Abro a porta sem ruído. Draco vinha preparando essa sala há muito tempo. Em vez do abandono que eu esperava, encontro um lugar limpo, um sofá em frente à lareira e, mais ao fundo, uma cama com pesadas cortinas verde-escuras.

Ouço gemidos agoniados vindos da cama. Quase não reconheço a voz de Draco, tamanha a dor que os sons carregam. Por alguns instantes, sou levado de volta aos tempos de Comensal e ao som da tortura de trouxas e bruxos adversários.

O que diabos está acontecendo aqui?

Afasto os reposteiros com um gesto brusco e me deparo com um quadro assustador. Draco se contorce na cama, enlouquecido de dor. Há sangue na parte de baixo do seu pijama e lágrimas descem pelo rosto dele.

-Draco! – É raro minha mente paralisar do jeito que paralisou quando vi o garoto. – Malfoy, o que houve?

Tento tocá-lo, e ele se afasta, assustado. Parece em pânico ao me ver. Ele tenta se afastar de costas na cama, mas a dor o faz vergar-se mais uma vez, e ele geme, agoniado.

-Draco, eu vou buscar a Pomfrey agora.

-NÃO! Por tudo que lhe seja sagrado, NÃO.

Pânico. Ele está em pânico. É melhor não deixá-lo agora.

-Meu pai não pode saber. Professor, não conta para ele. Ele me mata. Não conta. Eu faço o que o senhor quiser. Não conta. – A voz dele sai aos arranques em meio a gemidos de dor e soluços.

-Eu não vou dizer nada, Draco, acalme-se.

Levo a mão à testa dele; o garoto está gelado. Ele agarra meu braço, e seu olhar me comove. Draco não foi criado para lidar com tanta dor.

-Draco, você está sangrando e doente. Eu preciso chamar a Madame Pomfrey.

-Não! Ninguém pode saber! Já vai passar. Tem de passar.

Uma nova onda de dor, e ele verga o corpo. No movimento brusco os botões de cima de seu pijama se abrem, e eu vejo nitidamente um delicado par de seios.

Seios em um garoto! Então a memória antiga de uma aula com poucos alunos me volta à mente. Dezoito anos, androginia, beleza, vergonha, transformação dolorosa.

Draco é um hermafrodita!

Salazar! Se não ocultarmos isso de Lucius, o garoto está realmente morto.

Eu o sustento nos braços enquanto com um gemido abafado ele desmaia. Abençoadamente.

 


 [G1] Não entendi. Falta alguma coisa, nem que seja um hífen (véu-espelho, se for o caso). Será que é o "véu do espelho"?

 

Capítulo II

Adaptação

 

Draco recuperou a consciência na mesma sala da masmorra onde desmaiara. Vestia uma camisola antiga de dormir e estava limpo de todo o sangue que encharcara seu pijama horas antes.

Ele moveu-se na cama, chamando, sem querer, a atenção de Severus, que estivera sentado em frente à lareira nas últimas horas tentando ordenar seus pensamentos.

-Draco. Tome, beba isso. – Ele ajudou o garoto a sentar-se e lhe entregou um copo com uma poção de cheiro forte e gosto estranho. – Pomfrey disse que isso vai aliviar suas dores.

-O senhor contou a ela!

-Beba, Draco. Sim, eu falei com ela. Foi necessário. Você esteve perto demais da morte.

-Seria melhor....

O jovem bruxo não conseguiu terminar a frase e pareceu perdeu-se em seus pensamentos, fitando o copo em suas mãos.

-Beba, Draco.

-O que meu pai disse?

-Ele não sabe. E, se depender de mim, não vai saber nunca.

-Não sabe.... O senhor não disse a ele?! Mas o senhor é... Bom, o senhor é ligado a ele.

-Não, Draco. Eu não sou o capacho que seu pai supõe que eu seja. Agora, pela última vez, beba essa poção.

O tom mais incisivo do Diretor da Sonserina trouxe lágrimas aos olhos de Draco, mas ele tomou a poção calado e se recostou no travesseiro.

Severus respirou fundo e sentou-se na beirada da cama do garoto, que abaixou o rosto escondendo o olhar e as lágrimas.

-Draco, segundo a Pomfrey seu estado emocional ainda vai estar instável nos próximos dias. Seu corpo passou por muita coisa, e sua mente agora tem de se adaptar a tudo isso.

Draco apenas balançou a cabeça afirmativamente. Severus sabia que ele devia estar odiando chorar na frente de outra pessoa, ainda mais de um professor.

Vergonha e gratidão mesclaram-se no rosto de Draco quando Severus estendeu-lhe um lenço branco para que limpasse o rosto.

Ele queria que Snape saísse dali para que pudesse chorar até secar toda a tristeza no seu peito, mas ainda precisava perguntar uma coisa:

-Professor, e agora? O que vai acontecer comigo?

O esforço de Draco em manter um ar frio era derrotado pela dor, medo e desamparo indisfarçáveis que o professor podia ver em seus olhos. Aquilo tocou Severus de uma forma que ele não esperava.

-Vou cuidar de você, Draco. – Apenas Dumbledore poderia perceber alguma emoção na voz contida de Severus. – Pomfrey comunicou ao Diretor o que aconteceu, depois de me ajudar a atender você. Nenhum dos dois aceita a idéia absurda de registrar você no Ministério, então vamos criar uma forma de que ninguém saiba disso. Pelo menos até você estar disposto a falar sobre sua condição, e termos encontrado uma forma de livrá-lo do Ministério.

Só a enorme surpresa que sentia impediu Draco de ter uma crise de choro nervoso naquele momento.

-Obrigado, Professor. – A voz de Draco estava fraca.

Severus o fez deitar-se.

-Descanse agora. Vamos dizer que você está com Catapora de Dragão para justificar sua ausência nas aulas. Pomfrey exigiu repouso absoluto. Portanto, durma. Eu vou ficar no sofá.

A poção, somada à calma fria de Snape, ajudou Draco a entregar-se a um sono sem sonhos.

Durante horas o Professor velou o aluno, tentando prever todos os lances do jogo perigoso que fariam dali para frente para livrá-lo do Ministério.

 

 

 

 

Draco ficou a maior parte daqueles dias sozinho nas masmorras. Snape vinha depois do jantar e ficava com ele até a hora de dormir. No início, o silêncio e os modos bruscos do Professor deixavam o garoto inseguro; com o tempo, no entanto, ele se acostumou.

Acostumou-se também com o diálogo, quase discussão, entre Snape e Madame Pomfrey, que vinha antes do almoço e depois do jantar. O Professor Snape a interrogava sobre cada detalhe da condição do pupilo, não aceitando meias respostas ou subterfúgios. Mais de uma vez a enfermeira zangou-se com ele por estar constrangendo Draco.

O garoto descobriu que Madame Pomfrey era a única pessoa que se atrevia a falar firme com o Diretor da Sonserina. Não que ele acatasse o que ela dizia, mas pelo menos não a petrificava com um olhar de basilisco.

Mais constrangedoras, no entanto, eram as conversas que a enfermeira tinha com Draco quando estavam a sós.

Aparentemente ela tomara a si a tarefa de preparar o jovem para lidar com a parte feminina do seu corpo.

Cuidados, ciclo menstrual e higiene foram temas debatidos, apesar do desconforto do garoto. Mas quando ela abordou reprodução, Draco não permitiu que continuasse.

-Eu sou o que sou, Madame. Não vou reproduzir nem nada. Chega disso.

Diante do olhar angustiado do garoto, a boa enfermeira cedeu. Mas lhe trouxe uma pilha de livros e exigiu que ele os lesse.

-Infelizmente, Malfoy, não há nada específico para hermafroditas. – Ela fazia questão de chamá-lo assim, apesar do estremecimento que o garoto tinha toda vez que ouvia a palavra. – Mas no fundo funciona da mesma forma que uma mulher. Tenho certeza que você conhece o básico, mas leia isso com olhos de quem é, em parte, desse jeito.

Draco tinha certeza de que pelo menos um resumo dessas conversas chegava aos ouvidos do Professor Snape, e atribuía à sensibilidade da Pomfrey que esses relatórios não fossem feitos na sua frente.

Snape era um mistério total pra ele. Sempre o julgara um Comensal da Morte, exatamente como seu pai. Pior até. Um capacho de Lucius, além de um escravo do Lord das Trevas.

A metamorfose que sofrera afiara os instintos de Draco, e ele intuía uma preocupação sincera escondida na carranca de Snape. Ele não conseguia descobrir os motivos do Professor, mas sentia que por hora podia confiar nele.

O porquê de poder confiar no homem que deveria ser subserviente ao Lord de seu pai ainda o intrigava.

Nos anos desde a volta de Voldemort, Draco mudara muito de opinião a respeito do Lord e dos Comensais. Perdera parte do respeito e admiração que sempre sentira por Lucius ao ver que ele não passava de um peão nas mãos do outro bruxo. Mas o medo que sentia do pai desde criança persistia, agravado pela descoberta de que era uma aberração. E agora havia Snape. Uma surpresa naquela situação.

Na tarde do terceiro dia, Draco recebeu a visita do Diretor da Escola.

Uma coisa era confiar em Snape, que sempre ficava do lado dos da sua Casa, mas confiar no Diretor era bem mais complicado.

Olhando para o idoso bruxo, sentado ao lado de sua cama, Draco se deu conta do quanto ele era velho. Acostumara-se a achá-lo ridículo e imutável nos sete anos de escola, mas agora via um homem muito velho, com uma força mágica e uma serenidade enormes.

Os olhos azuis por trás dos óculos cintilaram, e Draco teve certeza de que, assim como ele podia perceber melhor o Diretor, Dumbledore podia ver por onde andavam seus pensamentos.

-Temos muito que conversar, Draco. Há muito a ser decidido. - O Diretor foi direto ao ponto, sem perder tempo com lamentações que Draco não queria ouvir. – Sei que você está fazendo aulas de Anatomia Bruxa, então acredito que você entenda em parte o que você é.

Draco assentiu, emburrado.

-Sei que você não gostaria de falar nisso, mas para sua própria segurança devemos conversar.

-Eu sei o que eu sou, Diretor.

-Não acho que saiba totalmente, meu jovem. O que você acha que é?

-Uma aberração! Uma maldita aberração que envergonha o nome da minha família.

Draco respirou fundo tentando acalmar-se. Estava se deixando alterar, e isso não era bom.

-Não, Draco. Você não é uma aberração. Você é um hermafrodita.

Draco encolheu-se como se sentisse dor. Ouvir aquilo dito em voz alta era tornar definitiva a mudança que ele ainda não aceitara.

-Imagino que isso seja muito duro para você. Gostaria de poder poupá-lo disso, mas não posso. Há alguns detalhes sobre a situação legal e mágica dos hermafroditas que não são aprofundados em sala de aula, e que você precisa saber. -Dumbledore fez uma pausa. -Você sabe por que os hermafroditas devem ser registrados no Ministério?

-Não. – Draco encarou o Diretor, ainda hesitante em falar no assunto.

-Por causa da empatia. É um dom raro, Draco. Nem o melhor oclumente pode enganar um alguém com esse dom e que seja totalmente treinado. nesse momento você sente, à medida que eu estou falando, se eu minto ou escondo alguma coisa.

Draco apenas assentiu.

- Existem duas formas de se treinar um esse tipo de talento. Se um bruxo for treinado na metodologia do Ministério, essa capacidade se amplia a níveis altíssimos, e o bruxo passa a sentir tudo o que a pessoa em que está focado sente. Por isso o Ministério exige o registro. Hermafroditas tornam-se, compulsoriamente, interrogadores do Ministério, respondendo diretamente ao Ministro.

Draco olhou assustado para Dumbledore. Seus instintos o avisavam que o pior ainda estava por vir.

-Imagine o que Voldemort não faria com alguém assim preso a ele. Acredito que, se deixarmos que você seja registrado, você acabe nem chegando ao Ministério. Eu penso que Lucius o entregaria a Voldemort antes disso.

-É. Eu creio que sim. O senhor disse que há outra forma?

-Sim. Pode-se treinar o o bruxo que tem o dom de empatia para bloquear a percepção. Não toda ela, é claro, mas uma parte. Ele nunca atingirá o grau de percepção que poderia de outro modo, mas não precisará viver isolado. Mas o Ministério força os Hermafroditas registrados em outra direção. Por lei o Ministério tem o poder de treiná-los conforme seu interesse. Depois de algum tempo, a empatia torna-se tão forte que a pessoa não consegue mais controlar e precisa viver isolada do mundo. Hermafroditas normalmente não vivem nem até os trinta anos. Não por alguma limitação física. Você pode viver até os cento e sessenta facilmente, como qualquer bruxo. O que os mata é a depressão. Sentir toda a dor de tantas pessoas somadas ao desprezo de muitos e a solidão mina sua resistência psíquica e física. Por isso temos de dar um jeito de ocultá-lo do Ministério e treiná-lo de forma que você não seja mais interessante para eles. O problema, Draco, é que o treinamento é difícil e demorado, e o Ministério não pode saber de nada antes disso.

-Se eles descobrirem, eu vou ser registrado à força.

-Sim. A menos que...

Draco olhou agoniado para o diretor enquanto o velho bruxo hesitava.

-Existe uma brecha na lei, Draco. Uma autoridade bruxa poderia casá-lo antes do registro, e então o Ministério não poderia levá-lo, mesmo que o treinamento estivesse ainda incompleto.

-Casar?

-Hermafroditas podem se casar, Draco. Tanto com um homem, quanto com uma mulher. E basta um atestado de um curandeiro para que esse casamento possa ser realizado. É a única e pouco divulgada rota de fuga dessa atitude absurda do Ministério.

-Pretende que eu faça um casamento de fachada, Diretor?

-Não, Draco. De forma alguma. Pretendo ocultá-lo por hora. E ajudá-lo no seu treinamento, junto com o Professor Snape. Mas quero que saiba de todas as suas possibilidades. - Dumbledore ergueu-se, preparando-se para deixar Draco a sós. – Descanse agora, meu jovem, aproveite para pensar sobre o que conversamos. E você está certo, u realmente estou ficando muito velho.

Draco não captou nada a não ser um leve divertimento do outro bruxo com sua nova percepção dele.

-Diretor, o Professor Snape já sabe disso tudo?

-Sim, Draco. Eu tive essa mesma conversa com ele. Agora descanse.

-Certo.

Quando o velho bruxo chegou à porta, Draco perguntou de chofre.

-Como o senhor sabe tanto sobre hermaf... sobre isso?

-Uma das minhas melhores amigas na escola foi uma hermafrodita.

Draco sentiu a verdade e a dor por trás da fala do Diretor e ficou sozinho com seus pensamentos.

Capítulo III



Primeiros Passos



Catapora de Dragão é uma doença que não oferece riscos mais sérios, mas é bastante contagiosa e pode deixar marcas no rosto se não for bem tratada. Na opinião de Draco, quem escolhera essa doença para justificar sua ausência demonstrara conhecer muito bem Narcissa Malfoy.



A mãe mandara-lhe doces, bilhetes, mas não fora vê-lo, temendo o contágio que poria em risco a beleza cuidadosamente conservada de sua própria pele. Draco não estranhou quando ela perguntou mais das possíveis marcas no rosto dele do que sobre o estado geral de sua saúde.



O desligamento e a futilidade da mãe lhe foram muito convenientes nessa hora. Se seu pai não tivesse de permanecer escondido, Draco teria problemas. Lucius não deixaria de ir ver seu herdeiro e perceberia de imediato que havia algo errado.



Draco saiu do seu isolamento, depois do jantar do sétimo dia, levando uma considerável pilha de cartões de seus colegas da Sonserina desejando sua pronta recuperação e uma desculpa perfeita para passar a ter um quarto sozinho: Snape queria agradar seu pai, dando-lhe um privilégio extra. Ia haver uma crise generalizada de ciúmes dentro da Casa, mas eles já estavam acostumados a verem Snape protegendo Draco.



Parado no meio do quarto que seria o seu até o final do ano, Draco tentava vencer a pertinente sensação de estranheza que o oprimia desde que saíra do quarto onde se transformara de vez na aberração que ele era, e onde passara uma semana praticamente isolado.



Os elfos já haviam guardado suas coisas, menos a pequena sacola de roupas íntimas femininas que Madame Pomfrey lhe entregara e que ele agora segurava firme junto ao peito, como se fosse sua âncora com a realidade. Sua nova e assustadora realidade.



A lareira deu sinal e, instantes depois, o Diretor da Sonserina emergia do fogo.



-Malfoy.



-Professor Snape.



Snape parecia encher o espaçoso dormitório com sua presença, e Draco conseguiu respirar livremente pela primeira vez desde que entrara ali.



-O quarto ficou razoável. - Snape sentou-se à mesa que havia junto à lareira e olhou em volta. – Creio que estará seguro aqui. Sente-se, Draco. Precisamos conversar.



Deixando nos pés da cama o pacote que ainda agarrava com força, Draco obedeceu, sentando-se na cadeira em frente à do Professor.



-Draco, estive com seu pai. Ele ficou furioso com sua suposta catapora, e eu usei sua raiva como desculpa para lhe proporcionar um quarto individual. Ele não desconfia de nada e lhe manda lembranças.



-Sim, senhor.



-Disse a ele que você estava aborrecido e entediado devido à doença, e que havia lhe mandado uma lista de pedidos bugigangas caras e inúteis. – Snape pôs um saco de galeões em cima da mesa. – Sei que não está habituado a economizar. Mas seja muito parcimonioso com esse dinheiro. Quando no final do ano letivo você não voltar para casa, Lucius vai desconfiar de que algo está errado, e você pode precisar desse dinheiro. Tem bastante aí.



Draco olhou admirado para o professor. Nunca lhe teria passado pela cabeça começar a juntar dinheiro. Ele sentiu-se incrivelmente transparente ao ver a sombra de um sorriso passar rapidamente pelo rosto de Snape antes de o mago continuar:



-Amanhã você retorna às aulas e inicia o seu treinamento comigo. Deverá usar essa lareira todos os dias depois do jantar para ir até minha sala, onde treinaremos. Assim como esse quarto só permite sua entrada, a minha e a de Dumbledore, minhas salas têm algumas proteções que foram modificadas para permitir sua passagem. Dumbledore explicou exatamente do que se trata esse treinamento?



-Mais ou menos, Professor. Ele só me disse que é o oposto do que o Ministério faria.



-Exato. É lamentável desperdiçar um talento tão útil, mas as conseqüências do seu uso estão além da nossa capacidade de controle. Portanto é melhor para você discipliná-lo e ficar apenas com seus subprodutos.



-Como assim, Professor?



-Você manterá sempre uma percepção intuitiva aguçada. Quase um sexto sentido. Que poderá se enganar eventualmente, mas que, na maioria das vezes, será bem confiável. Mas não poderá dizer, como faria se fosse treinado pelo Ministério, o que a pessoa está sentindo em detalhes. Os anais ministeriais falam de Interrogadores Hermafroditas que chegavam a descrever o que estava na mente de poderosos oclumencistas. Isso você não fará. Mas aprenderá a bloquear os sentimentos dos outros. Diga-me, Malfoy: quando Pomfrey se aproxima de você, o que ela sente?



Draco surpreendeu-se com a pergunta, mas, após um instante de reflexão, respondeu com segurança:



-Simpatia, alguma pena, preocupação e uma gama de sentimentos menores que eu não consigo identificar.



-Ela incomoda você?



-Se fica muito tempo perto de mim, ou se algum desses sentimentos ficam muito fortes, incomoda um pouco.



-Pomfrey é uma mulher bastante controlada. Uma pessoa mais descontrolada daria mais dor de cabeça em você. E o Diretor? Quando esteve com ele, o que captou?



-Preocupação, solidariedade e também... carinho? – Draco surpreendeu-se ao constatar essa ultima parte.



-Incomodou você?



-Não. A aura de sentimentos do Professor Dumbledore era menos intensa. Não me afetava tanto.



-Você a percebia de forma menos intensa. O Diretor sente com intensidade, mas é um excelente oclumencista e, assim, consegue bloquear sua percepção, pelo menos parcialmente.



O Professor deteve-se uns instantes, parecendo dar tempo para que Draco assimilasse tudo o que dissera.



-Imagine como pode ser seu dia amanhã. Andando pela escola, no meio de centenas de pessoas, algumas bem histéricas, e captando toda a gama de emoções.



Draco empalideceu só de imaginar o martírio que seria.



-Para amenizar esse problema, eu vou lhe ensinar hoje uma técnica básica de bloqueio. Mas evite aglomerações amanhã, evite os grifinórios, evite brigas e, se sentir alguma coisa, me procure, ou à Madame Pomfrey. De pé agora, Draco.



E durante duas exaustivas horas Draco treinou até conseguir bloquear um pouco sua percepção. Estava exausto quando Snape enfim o deixou sozinho.



Draco trocou-se rapidamente para dormir, evitando olhar seu corpo, quer diretamente, quer pelo reflexo no espelho.



Só quando estava deitado é que percebeu que o Professor Snape perguntara sobre os sentimentos de Pomfrey e os de Dumbledore, mas não falara nada sobre o que Draco captava dele próprio.



Focando sua atenção, Draco deu-se conta de que não sabia o que captava em Snape. Sabia apenas que estava tão bem camuflado quanto os sentimentos do Diretor, e que o que Snape sentia faria com que o Professor de Poções o defendesse e protegesse.



No meio daquilo tudo, foi um alívio perceber tão intensa proteção. Esse alívio trouxe um pequeno sorriso aos lábios de Draco à medida que ele mergulhava no sono.











Na manhã seguinte, antes mesmo da primeira aula, Draco não imaginava mais nenhum motivo para sorrir. Ele estava usando tudo que aprendera com Snape na véspera e, mesmo assim, já estava com dor de cabeça e náuseas.



Só conseguiu chegar ao almoço razoavelmente bem porque teve aula de História da Magia, e a habitual sonolência na classe o ajudou a descansar.



À tarde, Trato de Criaturas Mágicas fez a turma ficar dispersa por uma grande área, os grifinórios procurando distância dos sonserinos e vice-versa. Mas a aula de Poções logo depois não prenunciava nada de bom.



Na sala fechada, Draco procurava concentra-se no Professor; suas emoções controladas eram um bálsamo para ele. Surpreendentemente havia um outro foco de calma no caos emocional que assaltava a mente de Draco.



Oclumência! Só podia ser isso. Havia mais algum oclumencista na sala. Era ainda mais forte que o Diretor ou Snape. Nenhuma emoção transparecia.



Draco levou algum tempo para identificar Potter como o inesperado oásis de silêncio no meio daquela Babel emocional.



Concentrando-se ora em Snape, ora em Potter, ele chegou razoavelmente bem ao final da aula.



Draco jantou o mais rápido que podia e refugiou-se no seu quarto. Então era assim que seria a vida dele agora. Dor e solidão.



Foi com o espírito perturbado pela lembrança dos inúmeros venenos que conhecia que Draco dirigiu-se à segunda sessão de treino com Snape.



Uma hora depois, ele não pensava mais em tomar nenhum veneno. Pelo menos não antes de fazer Snape engolir algum. Estava cansado, com dor de cabeça e tinha certeza de que, se não saísse dali logo, ia começar a chorar.



Sabia que Snape estava usando todo o seu limitado estoque de calma e paciência, e que o que tentavam fazer era realmente difícil. Mas Draco só queria se enfiar debaixo das cobertas e chorar a noite toda.



Quando mais uma vez ele deixou-se afetar pelas emoções parcialmente liberadas de Snape, o Professor enfim perdeu a paciência:



-Malfoy, é questão de disciplinar a mente. Concentre-se.



Draco sentiu que seu queixo começava a tremer e cerrou os lábios com força para conter a explosão de soluços que sentia estar se formando dentro dele.



-Preste atenção. Você deve esvaziar totalmente sua mente enquanto cria a barreira que manterá as emoções dos outros fora dela.



Draco não olhava mais para o Professor. Ele tinha as mãos, lábios e olhos fortemente fechados e a cabeça baixa. Parado no centro da sala, sentia-se a mais patética das criaturas.



-Malfoy, olhe para mim.



O tom irritado do Professor foi a gota d’água que faltava. O jovem hermafrodita caiu de joelhos ao chão e, escondendo o rosto entre as mãos, deixou o pranto fluir.



-Draco! Draco, o que você tem?











Ele simplesmente caiu de joelhos e começou a chorar. Assim, do nada. Na minha frente!



Eu tentei falar com ele, mas o garoto não respondeu.



Está cada vez mais encolhido no chão, com o rosto escondido, e não pára de soluçar.



Mas que inferno!



Eu me abaixo e tento puxar as mãos dele de frente do rosto, para ver o que ele tem, afinal de contas, mas ele não deixa, e se encolhe até a posição fetal.



Acabo por tomá-lo nos braços e me sentar com ele ao colo.



Draco se agarra à frente das minhas vestes e, com o rosto enterrado nelas, continua a soluçar.



Sem ter o que fazer, me resta niná-lo como a um bebê. Seu corpo é tão frágil, e treme sacudido pelos soluços que ele não consegue conter. É difícil acreditar que ele conseguiu sobreviver à metamorfose pela qual passou.



-Vai ficar tudo bem, Draco. Vai ficar tudo bem – eu prometo, para acalmá-lo, sabendo que nada vai estar bem por um longo tempo. Eu só quero remover a dor dele. – Vai ficar tudo bem.



Eu o balanço nos braços como minha mãe fazia comigo depois das surras que meu pai costumava nos dar, e faço a mesma promessa vazia que ela fazia esperando que ela acalme Draco do mesmo modo como me acalmava.



Aos poucos o choro cessa, e só os soluços sacodem seu corpo. Ele esconde o rosto no meu peito. Imagino que esteja embaraçado pelo descontrole.



-Tudo bem, Draco. Foi um dia difícil.



Ele faz que sim com a cabeça e começa a erguer-se, tentando limpar o rosto. Ele parece ter sete e não dezessete anos agora.



Eu indico a ele o banheiro e uso os minutos que ele leva para se recompor para tentar me acalmar também.



Que eu me lembre, as únicas lágrimas que já me comoveram antes foram as da minha mãe, há muito tempo atrás. É estranho sentir esse abalo todo por causa da dor de Draco.



Quando ele volta, a velha máscara Malfoy está quase perfeitamente ajustada ao rosto, como esteve o dia todo, apesar de tudo o que ele sentia. Mas a máscara se desfaz no momento em que ele me olha, e o que eu vejo é uma jovem pessoa totalmente embaraçada à minha frente.



-Sente-se, Draco. – Eu indico uma poltrona, flutuo a outra até em frente à dele e sento-me, olhando-o nos olhos. – Fale.



-Falar, Professor?



-Sim, Draco. Fale o que está sentindo.



Ele não consegue ocultar a surpresa e me olha como se eu tivesse perdido o juízo. Mas que inferno! Por acaso ele pensa que eu sou algum insensível?



-O senhor está bravo.



Droga. Ele está totalmente indefeso.



-Eu sei, Draco. Mas eu não pedi que me analisasse, eu pedi que me dissesse o que está acontecendo. Com se sente?



-Eu não sei. – Por um instante terrível eu pensei que ele fosse chorar novamente. – É como se eu não coubesse em mim mais. Foi um dia horrível!



Eu destampei o poço! Draco dispara a falar, descrevendo-me detalhadamente cada emoção que captou durante o dia e o eco dessas emoções dentro dele.



Inferno! Eu perguntei o que havia, não pedi um diagnóstico emocional da escola inteira!



Como, em nome de todos os demônios inferiores, a cor das unhas da Parkinson pode deixar Draco deprimido?



E ele ainda não chegou ao almoço!



-Certo, eu já entendi, o dia foi um inferno - eu tento interromper o fluxo verborrágico, mas ele simplesmente não pára.



Anda por toda a sala, agitado e falando sem parar. Pelo menos o fôlego dele é muito bom.



Agora descobri que Goyle se sente rejeitado! É claro que o imbecil é rejeitado: é feio, burro e fede. Dane-se que Goyle é rejeitado.



-Mas o que tem Potter? – ele pergunta de chofre.



-Como o Potter surgiu nessa conversa, Malfoy?



-Como o estúpido Potter consegue se controlar tanto? Ele não sente nada?



Antes que eu responda, ele continua enumerando cada sentimento captado hoje.



Qualquer outra pessoa que tivesse um ataque desses na minha frente eu já teria estuporado. Eu me contenho porque começo a crer que se Draco não falar ele vai chorar de novo, e duas crises de choro é mais do que eu posso suportar.



-E então eu me descontrolei, Professor. E foi horrível ficar chorando como um idiota, mas obrigado por .... sabe.... sei lá ... me escutar. Ajudou muito.



-Certo, então. Draco. Espero que você entenda que estou exigindo tanto é para seu próprio bem. – Tento retomar a conversa lógica que eu intentara manter desde o início.



-Eu sei, Professor – ele me responde, sorrindo alegremente.



Eu me perco por instantes na expressão dele. Draco está ainda mais bonito do que antes.



-Você está bem? – sou obrigado a perguntar. Ele estava aos prantos, depois descontrolado, e agora está sorridente.



-Sim, senhor.



Acabo por dispensá-lo sem saber como continuar a conversa.



-Vá para seu quarto descansar. Continuamos amanhã.



Ele sai, parecendo não ter nenhum problema no mundo.



Preciso verificar a relação de insanidade e hermafroditismo. E um copo de firewhisky sem gelo.













Severus praticamente invadiu a enfermaria, dando um susto em Pomfrey.



-Que tipo extravagante de medicamento você anda dando ao Malfoy? Pretende enlouquecê-lo com alguma poção mal feita?



-Severus!



-Anda mulher, o que diabos você mandou Malfoy beber?



-Severus Snape, componha-se. E pare de tentar me intimidar, que não sou um dos seus alunos e o conheço muito bem.



Severus contraiu os olhos e encarou Pomfrey, ainda intimidador. Aquela velha irritante não se abalava facilmente.



-Qual a medicação dele? – Severus usou sua voz mais glacial e seu olhar mais mortífero.



Pomfrey apenas deu um leve sorriso e pegou lentamente a ficha de Draco. Desfez os feitiços protetores que impediam que qualquer pessoa não autorizada lesse a ficha, ajeitou os óculos sobre o nariz e começou a folheá-la lentamente, desde o registro da primeira vez que Draco entrara na enfermaria, ainda no primeiro ano, por causa de uma leve indigestão.



-Está tentando me irritar? – O tom de voz gelado de Severus teria feito qualquer outra pessoa desistir da idéia.



-Não, Severus. Estou lhe dando um tempo para que se acalme, sente-se e me diga, tranqüilamente, qual o problema.



Era exatamente isso que Severus sempre apreciara em Madame Pomfrey. O fato de ela não se deixar abalar por nada, distinguindo perfeitamente uma emergência real de uma imaginária. Não que algum dia ele fosse dizer isso a ela. Não que, naquele momento, ele estivesse em condições de apreciar essa característica.



-Acho que Malfoy está enlouquecendo.



-E por que pensa isso, Severus?



-Ele estava deprimido no início dos treinos, depois teve uma crise descontrolada de choro, depois falou histericamente sem parar nem para tomar fôlego, e depois parecia a mais feliz das criaturas.



-Certamente você puxou bastante no treino, mesmo vendo que ele não estava bem.



-Ele precisa aprender o mais rapidamente possível!



-Severus, ele está passando por muitas mudanças; forçá-lo agora só vai feri-lo mais.



-Está tentando me culpar por seus remédios malucos estarem enlouquecendo o garoto?



-Severus, Draco não está tomando nenhum remédio.



-Deveria estar! O garoto parecia outro.



-Ele é outro, Severus. Outra pessoa totalmente diferente. E tem de se adaptar a isso, aos hormônios femininos, a um corpo parcialmente feminino, e tem de lidar com todo o medo do futuro que deve estar sentindo agora. Eu sei que não é fácil, mas você precisa ter paciência com ele.



-Eu tenho.



-Severus...



-Tenho paciência, sim.



-E o que você fez quando ele chorou? Berrou com ele ou o estuporou?



-Eu o consolei – Severus falou o mais brevemente possível, imaginando uma forma de mudar de assunto., Mas a expressão de Pomfrey chamou sua atenção. – E não faça essa cara. Não adiantaria nada gritar com ele.



-Você se importa mesmo com Draco, Severus.



-Isso não vem ao caso agora. O que vem ao caso é essa aparente insanidade dele.



-Severus, Draco ficou aliviado porque você o ouviu. Ou não ouviu?



-Eu teria de realmente estuporá-lo para fazê-lo calar a boca.



Severus não gostou nem um pouco da risadinha de Pomfrey.



-Ele só precisava disso naquela hora, meu jovem. Que você o ouvisse. Draco não está louco, e você lidou muito bem com ele. Da próxima vez ouça-o antes que ele chegue no limite.



Severus ergueu-se, fazendo as vestes largas rodopiarem à sua volta.



-Eu vou dormir que ganho mais. Boa noite, Pomfrey.



-Severus.



O Mestre de Poções se voltou já quase da porta.



-Draco não está sozinho nisso, vocês não estão sozinhos. Eu e Albus estamos aqui para o que vocês precisarem.


Capítulo IV



Mútua Atração



Sem levantar os olhos do pudim que comia como sobremesa do jantar, Severus sentiu o exato instante em que Draco entrou no salão principal.



Lentamente, sem dar a perceber qualquer interesse, ele correu os olhos pelas mesas das Casas, começando pela da Grifinória e terminando na de sua própria Casa.



Nos pouco mais de trinta dias que haviam se passado desde a transformação de Draco, o jovem hermafrodita tornara-se ainda mais bonito, e Severus via-se surpreso ao realmente apreciar esse encanto totalmente andrógeno.



Era notório aos olhos do Professor de Poções que ele não era o único a admirar a beleza de Draco. O garoto, que sempre fora o centro de um grupinho na Sonserina, agora parecia atrair olhares de toda a escola. Se Draco quisesse, poderia escolher praticamente qualquer garota; havia também um bom número de garotos que ele seduziria facilmente.



Severus respirava aliviado ao ver Draco evitar todas as abordagens, discretas ou não. Dizia a si mesmo que era melhor o garoto não se envolver com ninguém agora, que era muito arriscado antes do final do treinamento. Uma denúncia antes que Draco tivesse completado seu treinamento e o garoto estaria nas garras do Ministério. Pelo menos até Lord das Trevas seqüestrá-lo.



Severus temia imaginar os efeitos da presença nociva do Lord das Trevas na sensibilidade ainda parcialmente desprotegida de Draco. Seu protegido já conseguia bloquear o caldeirão emocional da escola, mas no jogo da Lufa-Lufa contra Corvinal Draco se sentira mal por causa dos ânimos exaltados. Frágil assim, o Lord das Trevas o destruiria em pouco tempo.



Essas não eram as únicas preocupações de Severus. Desde o café da manhã ele estava achando Draco abatido. Em uma conversa rápida depois da aula de Poções, ele descobrira que o garoto estava com dor de cabeça o dia todo.



Severus aguardava a hora do treino para saber se Draco o obedecera e fora falar com Pomfrey. O rapaz andava rebelde em relação ao excesso de exames médicos a que era submetido, mas, caso ele não tivesse ido, Severus estava determinado a arrastá-lo até a enfermaria.



E até onde podia perceber pelo ar abatido de Draco, isso ia ser realmente necessário.



Parecendo ter captado a irritação do Professor, Draco olhou para Severus e deu um leve suspiro agastado. Severus olhou-o com sua mais arrogante expressão e preparou-se mentalmente. A noite não seria fácil; Draco andava irritadiço e teimoso.



Pouco mais de uma hora depois, foi um hermafrodita exasperado que entrou na sala do Diretor da sua Casa.



-Procurou a Pomfrey?



-Boa noite para o senhor também, Professor. Sim, eu procurei Madame Pomfrey.



Severus ficou meio segundo surpreso ante o tom petulante do aluno. Depois ficou furioso com a resposta.



-Senhor Malfoy, será que preciso lembrá-lo de que não está falando com um dos seus colegas? – Normalmente Draco teria se encolhido com o tom venenoso que Severus usara, mas no momento parecia irritado demais para temer Snape. – O que ela disse?



-Que estou ótimo para uma aberração.



-Malfoy, eu não gosto de tirar pontos da minha própria Casa, mas ou o senhor se contém, ou eu farei isso. E acredite-me, não vai gostar das conseqüências para o senhor se eu tiver de fazê-lo. Já que está bem, senhor Malfoy, acredito que devamos passar para o próximo nível de treinamento.



Severus notava a palidez acentuada de Draco e esperava que ele protestasse. Mas Draco apenas pegou a varinha e se posicionou para receber as instruções.



Decidido a dar uma lição no garoto, Severus avisou:



-Bloqueie, Malfoy.



E liberou toda sua irritação, completamente focada no aprendiz.



Draco empalideceu um pouco mais, mas conseguiu manter seu bloqueio mental, limitando-se a perceber o grau da irritação do Professor sem deixar-se envolver por ela.



Esses treinos eram desgastantes para Draco, mas o eram igualmente para Severus, que era obrigado a expor-se, mesmo que em pequenas doses, aos olhos do aluno. Era quase como um ator revivendo suas dores e alegrias para recriá-las ali, diante daquela criança.



-Certo, senhor Malfoy. Vamos aumentar o jogo. – Severus concentrou-se em memórias antigas que ainda tinham o poder de irritá-lo, fazendo com que a aura de raiva ao seu redor crescesse ainda mais.



Draco estava mortalmente pálido, mas permanecia de pé, com os braços cruzados no peito, mostrando a Severus uma resistência excepcional.



Disposto a derrotar Draco no que se tornara um confronto de vontades, Severus buscou as memórias do seu pai, sua mão pesada e todo medo e toda dor que sentira quando ainda era criança, reuniu de uma só vez a dor das humilhações quando adolescente, a dor de se descobrir preso ao Lord das Trevas, a dor de algumas das coisas que se vira compelido a fazer, e a profunda e onipresente dor de ser tão sozinho. Sem piedade, projetou essa dor toda em cima de Draco.



O garoto cambaleou para trás e levou a mão à boca, sufocando um gemido. Estava totalmente exangue.



Severus liberara coisas demais e precisou de alguns segundos para conter-se. Ainda trêmulo pelo impacto das próprias emoções, buscou socorrer o aluno, que tremia e suava frio.



Mal Severus se aproximara, Draco desmaiou, escapando de ir ao chão apenas pela velocidade de reação do Professor, que o pegou no colo e sentiu o garoto completamente gelado.



Na espartana sala do Diretor da Sonserina não havia nem um sofá onde pudesse deitar o garoto desmaiado. Sem parar para pensar, Severus carregou Draco para seu próprio quarto e o deitou em sua cama, antes de jogar Pó de Flu na Lareira e chamar Madame Pomfrey aos berros.



Quando a enfermeira chegou, Severus já havia coberto Draco com edredons e cobertores e estava esfregando a mão do rapaz, que lentamente voltava a si.



Severus foi empurrado para longe da cama de forma nem um pouco gentil pela velha senhora, que lançou feitiços de diagnóstico em Draco e pareceu acalmar-se com o que viu.



-Severus, me traga sal.



-Sal?



-Sim, Severus. Sal. Aquela coisa branca que se põe na comida. Draco teve uma queda brusca de pressão.



Menos de um minuto e seis elfos domésticos aterrorizados depois, Severus trouxe uma xícara de sal e entregou a Pomfrey, preferindo ignorar o resmungo dela sobre exageros.



Pomfrey fez Draco, que voltara a si, engolir uma generosa pitada de sal e mandou que ficasse deitado até melhorar.



-Só isso? – Severus sussurrou, ao ver que a bruxa não faria mais nada.



-É só o que ele precisa agora, Severus. – Pomfrey puxou-o pelo braço até longe da cama. – O que você fez para ele passar mal assim? É a primeira vez dele, deveria ir mais devagar. Com o tempo ele vai se acostumar, mas no primeiro mês ele deveria ser poupado um pouco - Pomfrey falava baixo para não incomodar o garoto.



-Do que diabos você está falando, velha maluca? – Severus conseguia passar a impressão de estar gritando com alguém mesmo que sussurrasse como naquele momento.



-Ele não disse a você? Mas você mandou ele me procurar!



-Ele me disse que estava bem.



-E você não viu que era uma bravata e que ele estava abatido? Ou viu, e resolveu puxar o treino até o limite dele para lhe dar uma lição?



Algumas vezes Severus pensava realmente em azarar aquela bruxa.



-O que diabos ele tem?



-Ele está menstruado, Severus. Pobrezinho! Deve ter ficado com vergonha de falar com você.



-Menstruado?



-Sim. Com o tempo isso será algo natural para ele, mas a primeira vez não está sendo muito fácil. Ele está tendo de lidar com uma persistente cólica, dor de cabeça, dor nas costas e a pressão dele está baixa, além, é claro, do sangramento em si. É difícil para ele adaptar-se a isso tudo. Você deveria ser mais compreensivo.



-Eu seria se ele tivesse me dito.



-Severus, não é fácil para ele falar disso.



-E eu vou adivinhar como?



-Cuidado! Fala baixo. Quer acordá-lo?



Só então Severus percebeu que Draco dormia a sono solto na sua cama.



-Papoula, ele está dormindo na minha cama!



-E você vai deixá-lo lá. Eu lancei um feitiço relaxante nele que o fará dormir bem.



-Na minha cama?



-Você ficou falando demais; não deu tempo de levá-lo para o quarto dele. Agora não quero que o incomode mais.



Severus respirou fundo e contou até vinte antes de rosnar para a bruxa na sua frente:



-Não posso ter um aluno dormindo na minha cama.



-Hoje pode. Vou dizer a Albus dessa circunstância especial. E da próxima vez seja mais gentil com o pobrezinho.



-Não sei por que não transformo você numa galinha velha e o “pobrezinho” ali em um galinho de briga.



-Porque você não é tolo. Cuide do garoto, sim?



A enfermeira se dirigiu à porta quando foi detida por um berro assustado de Severus.



-POMFREY!



-Fala baixo! O que foi?



-E se... e se... Droga, mulher! E se ele sujar minha cama?



-Pouco provável. Mas, se acontecer, tire os lençóis que os elfos lavam, ora essa. E não se atreva a deixá-lo embaraçado por causa disso.



Pomfrey se retirou, deixando Severus velando o sono de Draco sem saber onde ele dormiria aquela noite.















O feitiço de Madame Pomfrey fez Draco dormir a noite toda. Foi uma dor na região da barriga que o acordou.



“Droga de cólica!” Draco se encolheu quase até a posição fetal.



Ele tentou tornar a dormir, mas o incômodo persistente acabou por acordá-lo de vez.



E ele olhou em volta desorientado. Aquela não era sua cama. Era grande demais, o cheiro dos travesseiros era diferente e aquelas não eram suas cobertas.



Evitando qualquer ruído, ele sentou na cama e olhou em volta.



O Professor Snape dormia em um sofá do outro lado do quarto.



Draco lembrou-se de ter apagado durante o treino. Snape pegara pesado no treino, e ele se recusara a reclamar. Não era por ser uma aberração que ele se mostraria fraco diante do Professor, mas a porcaria do treino fora puxada demais e ele apagara. Pomfrey estivera ali, disso ele também se lembrava. Provavelmente Snape a chamara. Mas onde diabos ele estava?



Não estava na enfermaria, nem no seu quarto. Então Draco só pôde deduzir que estivera dormindo na cama do Professor Snape. Por que haviam deixado ele dormindo na cama de um Professor?



Provavelmente acharam que ele precisava de uma babá. Tudo culpa da maldita menstruação.



Um calafrio percorreu o corpo de Draco, e dessa vez não era por culpa da dor.



Desde a véspera, Draco vivia em estado de terror imaginando se aquela coisa que ele estava usando dentro da cueca seguraria aquele sangramento maldito, ou se deixaria sujar sua roupa, expondo sua condição para a escola toda. Ele estremecia só de imaginar a humilhação. E agora ele dormira na cama de um Professor e não sabia a quantas andava a situação com a coisa lá embaixo.



Draco preferia a morte a encarar Snape se tivesse sujado a cama dele de sangue. Ele temia até se mover, quanto mais olhar o estrago que seu corpo com certeza já devia ter feito.



O garoto se lembrava de ter-se trocado a última vez minutos antes de vir para o treino, por volta das oito da noite. Madame Pomfrey havia dito que a coisa agüentava sem ser trocado até doze horas, se fosse preciso, graças a um feitiço qualquer do fabricante, mas Draco preferia se trocar de hora em hora. Ele não ia deixar aquela coisa nojenta encostando nele além do necessário, e agora estava sabe-se lá há quantas horas com o mesmo absorvente. Até o nome da coisa era asqueroso. Sem falar que aquilo esquentava, pinicava, incomodava e provavelmente o deixaria assado.



Tomando coragem, Draco moveu-se na cama tentando erguer as cobertas sem fazer ruído, mas a luz da lareira não era suficiente e, mesmo ele não pretendendo acordar o Professor Snape, foi isso que aconteceu.



-Algum problema, Draco?



-Nenhum, Professor – Draco respondeu automaticamente, enquanto tomava consciência de que Pomfrey provavelmente falara ao Professor sobre seu estado.



-Está se sentindo melhor, Senhor Malfoy?



-Sim, senhor. – A cólica estava aumentando, mas Draco não ia se humilhar falando nisso. – Onde eu estou?



E Draco teve, pela primeira vez, a honra reservada a poucos de ver seu Professor de Poções completamente sem graça.



-Nos meus aposentos, Senhor Malfoy. Quando desmaiou ontem eu o trouxe para cá por ser mais próximo, e Madame Pomfrey achou por bem conservá-lo aqui.



Snape acendeu algumas tochas e velas enquanto falava, e Draco pôde ver que ele só tirara a habitual capa negra para se deitar. Sem dúvida o Professor tinha um porte másculo, e sem a capa dava para ver melhor a elegância de seus movimentos.



Sacudindo a cabeça para espantar esses pensamentos, Draco olhou para o relógio em seu pulso.



-São quase quatro da madrugada, Professor. Posso usar sua lareira para voltar ao meu quarto?



-Vai ficar bem sozinho, senhor Malfoy?



-Sim, senhor.



-Então fique à vontade.



Draco travou. Como ele iria se levantar com Snape ali?



As vestes do uniforme de Hogwarts que ele usava eram negras, e o sangue não apareceria, mas e a cama? O garoto olhou apavorado para o Professor, para a cama e para a lareira.



Draco sentiu a atenção de Snape sobre ele sendo focada do jeito que só ficava quando o Professor usava legilimância e ouviu a leve tossida que o outro bruxo deu.



-A lareira do quarto é bloqueada, Malfoy. Eu o aguardarei na sala.



-Sim, senhor.



Assim que o Professor saiu do quarto, Draco saltou da cama e levantou as cobertas: nenhuma mancha de sangue.



O alívio o invadiu. Não teria de botar fogo na cama do Diretor de sua Casa, não importando quantos pontos isso custaria à Sonserina.



Despedindo-se formalmente do Professor, Draco voltou o mais rápido que pôde a seu quarto e, apesar do frio e da hora, enfiou-se no chuveiro.



Um banheiro individual era um luxo que só os Professores possuíam, mas Snape providenciara um para Draco, evitando que ele tivesse de dividir o chuveiro com mais alguém. Naquele momento, Draco achou isso uma verdadeira benção.



Desde que a transformação de seu corpo ocorrera, Draco evitava tocar-se. Tomava banho o mais rápido possível, tocando a parte nova de sua anatomia o minimamente indispensável para sua higiene. Naquele dia, no entanto, ele ficou parado debaixo do chuveiro, deixando a água quente acalmar seus batimentos cardíacos e relaxar sua musculatura.



Quando saiu do banho, o vapor enchia o banheiro. No quarto, ele secou-se rapidamente e vestiu apenas as roupas de baixo antes de deitar sob as cobertas.



Normalmente ele se enxugava e se vestia mais rápido ainda, sem sequer se olhar. Draco só tirava a cortina que cobria o enorme espelho trouxa que havia em seu quarto depois de completamente vestido, para conferir se seus seios não estavam em evidência e se seu cabelo estava no lugar.



Criado para desprezar os trouxas, nunca imaginara que um dia fosse preferir usar um objeto feito por eles, mas apreciava a incapacidade de falar do espelho. Desconfiava que isso tinha sido uma delicadeza do Professor Snape. Mais uma.



Até a sua metamorfose, Draco sempre supusera que Snape só vivia para agradar Lucius, mas agora ele podia sentir a proteção que vinha do Professor. Ele nunca externava carinho ou preocupação, mas Draco sabia que podia confiar nele, contar com ele.



Draco via o Professor como um homem difícil de se lidar, rude com as pessoas, capaz de jogos arriscados, fora um choque saber que Snape espionava o Lord das Trevas. Apesar disso, Snape era gentil com ele. Não de gentileza comum, que se traduzia em palavras; ele só agia diferente com Draco. Sólido como uma rocha, mas um tanto perigoso também, e isso agradava o jovem sonserino, que de ordinário preferia evitar qualquer situação de perigo.



Com Snape era diferente. A sensação de perigo latente que ele às vezes tinha perto do Professor o estimulava. Ele odiava a idéia de que Snape poderia desprezá-lo por alguma razão, por isso se comportara como um idiota, indo além dos seus limites no treino.



E Draco avaliou que, no final das contas, tinha havido uma coisa boa em toda aquela situação embaraçosa: ele agora sabia como cheiravam os travesseiros do Professor. Sorrindo dessa idéia boba e abraçando seu próprio travesseiro, ele conseguiu dormir pouco antes do dia raiar.



Não era a primeira vez que Draco dormia pensando em Severus e sentindo-se confortado por isso. Não que, naquele momento, ele se importasse ou tentasse entender o porquê.















Severus finalmente trocou suas vestes pelo confortável camisolão e deitou, pretendendo dormir o que restava da noite em paz.



Quando colocou a cabeça no travesseiro, sentiu o perfume levemente cítrico de Draco. A visão do garoto adormecido naquela mesma cama e o calor que o corpo dele deixara ali vieram assombrá-lo também.



Severus já admitira à sua consciência que Draco era muito atraente e que trabalhar tão próximo ao garoto era perturbador. Nada mais que isso, um aluno interessante, por quem ele sentia uma certa atração. Já tinha acontecido antes, e Severus sempre soubera se conter. Não era nada de mais. Todo professor, à exceção de McGonagall, já devia ter passado por algo semelhante.



Agora ele estava com os sentidos invadidos pela lembrança de Draco. A culpa por estar se revirando na cama, insone e cheio de desejo por um aluno, era da Pomfrey e do Lord das Trevas. Ela por ser uma tonta e ter insistido para que ele deixasse o garoto dormir ali, na sua cama, e o Lord por existir. Se ele não tivesse voltado, Severus poderia ter continuado sua rotina de misturar-se aos trouxas no verão e ter alguns casos sem grandes envolvimentos sentimentais. Agora, com os comensais e espiões do Lord das Trevas ativos, era arriscado demais continuar com esse hábito.



Mais de três anos de jejum sexual haviam produzido esse efeito: estava se interessando por um aluno. E um aluno que estava sob sua responsabilidade direta, pelo qual nutria alguma consideração.



Não tinha sentido nenhum negar a si mesmo que realmente tinha uma consideração especial por Draco. Não era homem de tentar se enganar. E era exatamente essa mistura da consideração que tinha por Draco e do quanto o rapaz era atraente que o estava deixando naquele estado.



No seu segundo ano como professor em Hogwarts, Severus se sentira atraído por um aluno do sétimo ano da Corvinal. Alto, moreno, másculo e inteligente, o estudante era apenas seis anos mais novo que ele, mesmo assim Severus conseguira controlar sua libido.



A bela ruiva da Sonserina que lhe lançava olhares dissimuladamente sedutores alguns anos depois também não conseguira abalar a austera regra de conduta que ele decidira seguir quando começara a trabalhar na escola.



Além de ser uma estupidez se envolver com um aluno, havia o risco. Severus sabia muito bem que era um espião, e quais os riscos que corria. Relacionamentos para ele deveriam ser apenas satisfatórios encontros sexuais, com pessoas que não soubessem quem ele realmente era. Durante anos isso fora suficiente.



Era só carência de sexo que o fazia desejar ter Draco em sua cama permanentemente. O belíssimo garoto nunca desejaria nada com ele, de qualquer forma.



Severus concluiu que estava raciocinando com muita sabedoria, mas o corpo não parecia concordar com isso. O melhor a fazer seria trocar a roupa de cama e arrancar o cheiro de Draco dali, mas, ao contrário, Severus viu-se aspirando o perfume que o deixava semi-ereto e o fazia dar um meio sorriso.



Ele acabou por dormir em meio a uma fantasia com Draco.



A fantasia tornou-se sonho, e Severus viu-se sozinho em uma charneca desolada e seca. Nenhuma cor destacava-se no meio daquela desolação, e ele caminhava sentindo frio no corpo e na alma.



Em seu sonho, Severus andou até encontrar um vulto vestido de negro e tão cheio de tristeza quanto ele próprio. No sonho ele sabia que bastava estender a mão para descobrir de quem era o vulto e consolar a tristeza dele para acabar com a sua.



Mas Severus se afastou quase correndo até dar de cara com Lupin. O lobisomem tentava detê-lo, mas ele se desvencilhava das mãos de Lupin, empurrando-o com força, até que Remus conseguiu segurá-lo firmemente:



-Severus, volte. Não deixe isso escapar de você.



-Não. É mais seguro assim. É melhor.



-Melhor para quem,Severus?



-Pra todo mundo.



Com um safanão, ele livrou-se de Lupin e continuou a fugir, agora correndo cada vez mais rápido.



Apesar de não ver mais o lobisomem, ainda podia ouvi-lo dizendo coisas como se estivesse dentro da sua mente.



-Não é melhor pra ninguém, Severus. É frio, vazio e fútil no final das contas. Ficar sozinho parado também não é bom. Busque o que é seu, Severus.



Mas Severus fugiu para a região banhada pela lua cheia e viu Remus se transformar em Lobo e uivar, enchendo o ar de mais tristeza ainda.



Fugindo daquilo tudo, deu de cara com Black, ou seu espectro. A aparição falava alguma coisa que ele não podia ouvir, mas parecia importante.



Um pensamento cruzou rápido por sua mente: se Black tem algo que preste a dizer é porque é sonho. E Severus acordou com o coração acelerado segundos antes do seu despertador tocar.



Enquanto se vestia, Severus esqueceu o sonho e concentrou-se em arrumar um jeito de bloquear o que sentia de forma a não deixar Draco captar nada, e esquecer o desejo que o hermafrodita lhe despertava.



Durante o desjejum, quando seus olhares se cruzaram rapidamente Severus chegou à conclusão de que, se a primeira parte do plano era muito difícil, a segunda era quase impossível. E, até onde ele podia perceber, as coisas ainda iam piorar. E muito.