Nome da fic: A
carta
Autor: Magalud
Censura: PG-13
Gênero: Drama.
Spoilers: Todos os cinco livros e todos os três filmes. Com modificações.
Alerta: Isto é um AU (Universo Alternativo) Tem gente viva que deveria estar
morta e outras inconsistências, mas eu quis fazer assim. Eu também quis usar
alguns nomes no original, mas me disseram que as pessoas não iam saber de quem
se tratava. Quero registrar aqui meu protesto! O nome do pai do Harry não é
Thiago, o nome da mãe não é Lílian, mas eu tive que usar assim! Buá!
Desafios: número
27 – Snape é pai de Harry.
Resumo: Uma carta
traz notícias de Snape que fazem Harry Potter duvidar de tudo sobre sua vida.
Notas:
Agradecimentos: Jana,
minha beta querida!
Disclaimer: Esses personagens são de JKR, eu não quero nem vou ganhar dinheiro
com eles.
Esta fic faz parte do SnapeFest 2004, uma iniciativa do grupo SnapeFest, e está
arquivada no site http://oxetrem.com/fest e no meu site http://www.geocities.com/
A carta
Petúnia
Dursley não sabia quem estava tocando a campainha de sua porta na rua dos
Alfeneiros número 4, naquela tarde de terça-feira quente e úmida de verão. Mas
assim que abriu a porta e olhou para baixo, sentiu as pernas ficarem trêmulas e
seu coração bater descompassado. Afinal de contas, não era todo dia que um
duende engravatado, de orelhas muito pontudas e com um ar muito oficial, batia
à sua porta.
-
Harry Potter? – pediu o duende.
Tia
Petúnia soltou um gemido e desmaiou. Ao ouvir o barulho, Harry Potter parou de
passar a roupa na sala de estar e foi à frente ver o que estava acontecendo.
Seus olhos verdes se arregalaram:
- Tia
Petúnia!
O
duende indagou de novo:
-
Harry Potter?
- Sim,
mas –
-
Carta registrada do Banco Bruxo Gringotts – O pequeno ser entregou uma
prancheta nas mãos de Harry – Assine na linha pontilhada, por favor.
Assim
que Harry assinou o papel de entrega, ele entregou uma carta volumosa, dizendo:
-
Carta registrada para Harry Potter, entregue. Bom dia.
O
duende estalou os dedos e desapareceu, provavelmente indo de volta para
Gringotts.
Harry
enfiou a carta dentro do bolso e correu a acudir sua tia desmaiada. Afinal, não
havia mais ninguém ali. Duda estava no quarto, jogando videogame com sua
patota, e ele não ouvia nada do que se passava na casa. Tio Válter estava no
trabalho, e Harry estava servindo de elfo doméstico para os tios – como fazia
todo o verão. E em pleno aniversário. Sim, porque aquele era o dia que ele
completava 17 anos. Segundo as leis da Inglaterra, ele já completara a
maioridade. No verão seguinte, Harry teria se graduado de Hogwarts, e poderia
viver onde ele quisesse, provavelmente com Sirius no largo Grimmauld, onde
ficava a Mansão Black, sede da Ordem da Fênix – onde o padrinho vivia escondido
das autoridades do Ministério da Magia.
Harry
colocou a cabeça de tia Petúnia no seu colo e deu tapinhas no rosto dela:
- Tia
Petúnia! Tia Petúnia, acorde!
-
Ah... O quê? O quê? Que houve?
- A
senhora desmaiou.
Parece
que a memória de Petúnia voltou, porque ela repentinamente gritou,
levantando-se quase que de um pulo:
-
AAAHHH! Onde ele está? Para onde ele foi?
Harry
achou melhor fingir que não sabia de nada:
- Para
onde foi quem, tia Petúnia?
-
A-aquela... aquela *coisa*! De
orelhas pontudas.... pequeno...! E ele estava procurando por você! – A expressão
dela mudou, e ela apontou um dedo muito magro e fino direto no rosto de Harry –
Era uma das aberrações da sua gente, eu aposto! Você tinha que estar metido
nisso!
Harry
continuou se fazendo de desentendido:
-
Metido em o quê? Eu não sei do que está falando!
Tia
Petúnia apontou o dedo para cima:
- Já
para o seu quarto!
- Mas
por quê? Eu não fiz nada!
-
Porque eu estou mandando!
- Eu
ainda não terminei de passar a roupa!
-
Deixe que eu me preocupe com isso! Agora suma da minha frente! Vá para o seu
quarto e não saia de lá até eu mandar!
Droga,
pensou ele, enquanto subia as escadas para seu quarto. Ele estava numa
encrenca, com certeza, e as coisas só iriam ficar piores quando tio Válter
chegasse em casa.
Aquilo
ia ser castigo para uma semana.
Se ele
pudesse usar mágica fora da escola, ele teria modificado a memória dela. Só que
ele não tinha aprendido como fazer isso ainda – era matéria para o sétimo ano.
E ele ainda tinha um mês inteiro antes de voltar a Hogwarts.
Mas
uma coisa ele não entendia: por que um duende de Gringotts tinha deixado o
banco no Beco Diagonal para entregar uma carta? Não parecia ser coisa de um
duende.
Ele
enfiou a mão no bolso e tirou a carta – o pergaminho era velho, o que
significava que era uma carta antiga. O que poderia ser aquilo?
A
carta estava endereçada a ele, e dizia simplesmente: "Harry Potter", numa letra que ele nunca tinha visto, mas
era elegante e bonita. Ele a abriu com cuidado e começou a ler, sem ter idéia
do que se tratava.
"Meu
amado Harry,
Aqui
quem escreve é sua mãe Lílian. Se você está lendo essa carta, é porque eu morri
antes de você completar 17 anos. Espero que tenhamos tido algum tempo juntos,
pelo menos, mas no momento as coisas estão ficando cada vez mais complicadas
para Thiago e para mim. Não sei quanto tempo mais conseguiremos fugir de
Voldemort. Estamos a ponto de fazer o Feitiço Fidelius para assegurar um pouco
mais de tranqüilidade à nossa família, já que você é apenas um bebê.
Mas eu
escrevo principalmente para lhe dar uma coisa a qual você tem total direito: a
verdade. Se eu e Thiago morrermos, você não terá quem lhe diga isso, e você
merece saber de tudo. Ninguém sabe da verdade a seu respeito, Harry. Thiago e
eu fomos muito cuidadosos para escondê-la de todos.
A
verdade é que Thiago não é seu verdadeiro pai. Provavelmente todos lhe disseram
que Thiago o amava muito, e isso é verdade. Eu também sou legalmente casada com
ele, mas antes dele, eu era apaixonada por um homem que se tornou um Comensal
da Morte. Eu tentei dissuadi-lo de seguir Voldemort, mas ele sofria muita
pressão para se unir aos Comensais. Por isso, afastou-se de mim e juntou-se ao
Lord das Trevas. Comecei a namorar Thiago uns meses depois, e descobri que
estava grávida daquele homem que me abandonara. Eu não podia procurá-lo, não
com Voldemort tentando tão desesperadamente nos matar, portanto nunca pude
falar com ele e contar a verdade. Jamais fiquei tão apavorada em minha vida,
nem quando descobri que era bruxa numa casa cheia de trouxas.
Foi
Thiago quem ofereceu a salvação, casando-se comigo e criando você como se fosse
filho dele. Assim que você nasceu, nós colocamos diversos feitiços para fazer
você ficar muito parecido com Thiago. Aposto como as pessoas dizem o tempo todo
para você o quanto você é parecido com Thiago, mas isso é tudo obra de
feitiços. A partir desse ano, eles devem começar a perder a força e você deverá
ficar gradualmente cada vez mais parecido com seu verdadeiro pai. Não sei se
ele estará vivo, pois vivemos em tempos difíceis, meu filho. Mas acho que você
deve saber o nome dele. Ele é Severo Snape, um homem a quem amei muito, mas que
tinha muitas cicatrizes emocionais. Você agora tem 17 anos, e é um adulto,
portanto pode fazer o que quiser. Se quiser procurá-lo, caso ele esteja vivo, lembre-se
de que ele escolheu o caminho das Trevas, e provavelmente nunca ouviu falar de
você. Não é culpa dele.
Para
que você soubesse ao menos sua verdadeira origem, Thiago e eu resolvemos deixar
essa carta no banco Gringotts, para ser entregue no dia em que você completar
17 anos. Também resolvemos abrir um cofre para você. O dinheiro é de Thiago, e
ele lhe deu de coração. Ele o ama como um verdadeiro pai, e você sempre terá um
lugar no coração de Thiago Potter.
Perdoe
os atos de uma mãe desesperada, mas tudo que eu fiz foi pensando somente no seu
bem-estar. Eu te amo muito, Harry, e faria qualquer coisa por sua felicidade.
Espero que sua vida seja cheia de sucessos, mas acima de tudo, espero que você
seja muito feliz em qualquer coisa que resolver fazer.
Sua
mãe,
Lílian"
Harry
leu e releu a carta mais de cinco vezes, às vezes com lágrimas que escorriam
por suas bochechas, às vezes com uma raiva que parecia querer explodir dentro
de seu peito. E depois releu mais tantas vezes, sempre experimentando emoções
diferentes.
Ele
ignorou as corujas que traziam presentes de seus amigos e o tradicional bolo de
aniversário de Hagrid. Ele guardou tudo aquilo no buraco escondido pela tábua
solta do assoalho de seu quarto.
Ele
não tinha o pai que pensava ter e seu verdadeiro pai era a última pessoa que
pensava que poderia ser.
Como
aquilo poderia ser possível?
Ele
olhou para o relógio e viu que estava trancado no seu quarto já fazia mais de
três horas. Três horas desde que sua vida tinha mudado de cabeça para baixo
Edwiges
voou para dentro do quarto e pousou de maneira gentil no ombro dele, dando-lhe
bicadas afeiçoadas na orelha. Harry estava com os olhos vermelhos de tanto
chorar e a cabeça doendo de tanto pensar. Os seis anos de Hogwarts lhe passaram
pela cabeça. Todas as vezes que Snape o tratara mal, todas as vezes em que ele
o tinha humilhado...
Meu pai me odeia.
E como
isso tudo tinha sido escondido dele?
Ele
tinha tanto que pensar, tanto que pensar...
Pensou
em escrever para Rony e contar tudo, mas ele já podia ver a resposta. Rony
faria cara de nojo e escreveria: "Ew!
O babaca seboso é teu pai? E você vai ficar parecido com ele? Ew!"
Harry
arregalou os olhos e foi se olhar no espelho que ficava dentro de seu
guarda-roupas. Olhou para seu rosto e não viu nada mudado. Talvez sua mãe
estivesse errada... Talvez ele não fosse filho de Snape, afinal... Ele não queria ser filho de Snape!
Quem
sabe ele poderia escrever para Hermione. "Harry,
você tem que se aproximar dele e esquecer tudo o que aconteceu... Ele é seu pai",
diria Hermione, sabendo direitinho que tudo que Harry queria era a maior
distância possível entre ele e o Mestre de Poções.
Não,
ele não estava nem um pouquinho a fim de escrever para Hermione sobre isso.
Mas
ele tinha que contar para alguém! Alguém tinha que falar com ele sobre isso, se
não ele iria explodir.
Quem
sabe Sirius? Sirius era seu padrinho, ele iria ajudá-lo.
"Desculpe, Harry, mas se o Ranhoso é seu
pai, então isso significa que você não é mesmo meu afilhado. Provavelmente
Lúcio Malfoy é seu novo padrinho E já que estamos falando disso, poderia
devolver aquela Firebolt que eu te dei?".
NÃO!
Como
ninguém sabia disso? Como eles conseguiram esconder isso de todo mundo?
Não.
Alguém tinha que saber.
Dumbledore.
Sim, Dumbledore! Se é que tinha alguém que sabia de tudo o que se passava, era
Dumbledore!
Ele se
sentou na sua escrivaninha, pegou um pedaço de papel e disse:
-
Edwiges, pronta para dar uma voltinha antes do jantar?
Ela
abriu as asas ruidosamente e foi para o seu poleiro.
-
Então espere um pouco.
Harry
começou a escrever.
"Professor
Dumbledore,
Acabo
de ter uma surpresa no meu aniversário. Meu verdadeiro pai não é Thiago Potter,
mas sim Severo Snape. O senhor já sabia disso, não sabia? Por que nunca me
contou?
Gostaria
de uma resposta o quanto antes, por favor,
Harry
Potter"
Harry
sabia que era um bilhete danado de curto, mas ele não sabia o que mais poderia
escrever sem despejar uma avalanche de insultos contra o diretor de Hogwarts.
Dumbledore tinha escondido dele a verdade sobre a profecia que o ligava a
Voldemort, e Sirius quase tinha sido morto por causa disso. Desde então, Harry
tinha uma mágoa profunda em relação ao velho bruxo.
Ele
dobrou o papel e aproximou-se de Edwiges, dizendo:
- Espero
uma resposta rápida, Edwiges. Fique puxando a barba dele até ele responder!
A coruja
piscou os grandes olhos amarelos e alçou vôo graciosamente, atravessando a
janela e rumando para o norte. Harry ficou acompanhando-a e olhando para a
tarde que começava a morrer em Little Winghing, sem ter sua mente fixa em nada
específico. Ele ainda estava um pouco em choque com tudo que acontecera.
Naquela
noite, ele não conseguiu nem comer nem dormir. Primeiro por causa de tudo que
estava martelando em sua cabeça. Segundo porque Duda tinha resolvido comemorar
seu aniversário usando todos os presentes ao mesmo tempo – inclusive instalando
seu terceiro computador. Harry, claro, não tinha nenhum: nem os computadores
antigos, nem os PlayStation antigos. Terceiro porque tia Petúnia aparentemente
tinha se esquecido de chamá-lo para jantar. Ele terminou comendo o bolo de
aniversário que Hagrid lhe mandara.
Passar
a noite em claro não era das experiências mais agradáveis do mundo,
especialmente com a notícia de que seu verdadeiro pai era um babaca seboso,
mal-humorado e sem coração chamado Severo Snape. Harry não conseguiu pregar o
olho e para piorar tudo, sentiu sua cicatriz arder.
*Hoje não, Voldie. Harry está com muitos
problemas*, pensou, mas por via das
dúvidas resolveu praticar os exercícios de Oclumência que finalmente, depois de
um ano, ele tinha conseguido dominar – graças à insistência de Snape. Pensou
que aqueles exercícios eram mais necessários do que nunca. Tudo que ele
precisava agora era que Voldemort soubesse da sua mudança de paternidade.
O dia
mal tinha amanhecido quando ele ouviu um farfalhar de asas na janela. Virou-se,
e viu não Edwiges, mas sim Fawkes, todo glorioso e magnífico em suas penas
douradas e vermelhas, pousado no parapeito da janela. Bem se via que ele tinha
renascido há poucas semanas.
-
Fawkes! Vamos, entre! Quer um pouco d'água?
A
fênix voou para junto de Harry e ele viu um bilhetinho preso na perna. Mas
quando ele foi pegar, a porta se abriu e tia Petúnia disse:
- Pode
acordar, ande – ela se deteve ao ver a fênix – Que bicho é esse? Onde está a
coruja?
Harry
disse:
- Ele
só está de passagem.
- Não
quero você conversando com seus amigos anormais! – disse ela, com os lábios
repuxados – Nós estamos de saída e só devemos voltar de noite. Procure se
comportar e não sair do seu quarto.
-
Então devo ir ao banheiro agora?
-
Insolente! Eu não quero você andando por toda a casa, fazendo bagunça. Eu sei
que vou pedir muito de você, mas comporte-se!
E
saiu, batendo a porta. Harry não sabia para onde os Dursley estavam indo, mas
ouviu com alívio quando eles tomaram seu café, empacotaram o carro e saíram da
vista dele. Ele finalmente teve uma chance de abrir o bilhete trazido por
Fawkes, que ainda estava no seu quarto.
Era
ainda mais curto do o que Haryr tinha enviado.
"Prepare-se. Estamos a caminho", era só o que dizia, na letra característica de Alvo
Dumbledore, reconheceu Harry. O conteúdo do bilhete o fez arrumar seu malão e
esperar pelo que chegou em apenas alguns minutos: um destacamento da Ordem da
Fênix para levá-lo a Largo Grimmauld. Dessa vez eram apenas três bruxos: Tonks,
Remo Lupin e Olho-Tonto Moody.
Este
último, aliás, não estava nada satisfeito com a missão:
- É
muito arriscado, digo eu. Mover o garoto só por causa de um boato. Ou talvez
tudo seja imaginação do menino.
Harry se irritou:
- Não
é um boato! Eu não estou imaginando nada disso!
- Bom,
mas nós vamos saber tudo sobre ele mais tarde, eu suponho. Vamos, garoto, fique
quieto para que eu possa aplicar o Feitiço Desilusório.
E lá
se foram todos voando, como da primeira vez que Harry foi até o Largo
Grimmauld, só que dessa vez em plena luz do dia. Foi difícil se esconder dos
trouxas com o sol a pino, mas os quatro finalmente chegaram a seu destino.
Harry entrou na casa pé ante pé, mas Tonks informou, sabendo por que ele fazia
isso:
- Não
precisa se preocupar com a Sra. Black. Moody conseguiu desfazer o feitiço que
prendia o quadro dela na parede.
Harry
olhou para a parede e viu uma mancha amarelada no lugar onde o grande quadro
estava pendurado. Ele não sentia nenhum remorso: a Sra. Black gostava de lançar
os piores insultos a todos que entravam na sua casa para tramar contra
Voldemort, a quem toda sua família dava apoio – exceto Sirius e Andrômeda, é
claro.
Lupin
levou as bagagens de Harry para cima, quando Tonks explicava, levando-o para a
biblioteca:
-
Dumbledore ficou de providenciar a vinda dos Weasley se possível. Por enquanto
você e Sirius estão sozinhos na casa.
-
Harry! – Sirius abriu os braços e um sorriso ao ver o afilhado entrando na
biblioteca – Que bom que você veio!
Os
dois se abraçaram, e Harry sentiu-se genuinamente feliz em ver Sirius. Ele
parecia um pouco mais gordo, os cabelos mais curtos. Estava na cara que ele
passara um bom ano desde a Batalha do Departamento dos Mistérios. Harry não
tinha engordado coisa alguma, nem crescido. Ele ainda tinha uma carinha de
adolescente, apesar de todos os apertos que tinha passado em sua jovem vida.
- É
bom ver você também, Sirius.
-
Dumbledore está terminando uma reunião da Ordem da Fênix ali e logo vai se
juntar a nós para discutirmos essas suas notícias. Por que não escreveu para
mim?
Harry
sentiu suas faces se avermelhando:
- Eu
achei que... não quisesse mais falar comigo.
Sirius
parecia preocupado:
-
Harry, que bobagem. Se você tem um problema, você pode falar comigo. Você sabe
disso, não sabe?
- É,
mas... eu sei lá.
- Eu
sei, você estava confuso.
Uma
voz diferente disse da porta:
- E
não era para menos. Qualquer um ficaria confuso diante dessas notícias.
Os
dois se viraram e viram o Prof. Dumbledore parado na entrada, enquanto atrás
dele algumas pessoas iam em direção à porta, muitas delas pessoas que Harry
jamais parecia ter visto. Todos eram bruxos, ele sabia, mas alguns estavam
vestidos em roupas de trouxa, talvez para não chamar a atenção.
-
Prof. Dumbledore – cumprimentou Harry – O senhor respondeu mesmo rapidamente.
- Não
posso negar que você chamou minha atenção com aquele bilhete, Harry. Vamos,
sente-se. É ainda bem cedo, quem sabe você gostaria de tomar uma xícara de chá?
- Eu
aceito, obrigada.
Tonks,
que estava atrás deles, ofereceu-se:
- Eu
faço!
E
saiu. Sirius fechou a porta e os três sentaram-se nas poltronas antigas de
couro que cercavam a biblioteca. Dumbledore disse:
-
Agora diga, Harry: como você tropeçou naquela informação extraordinária?
-
Minha mãe me deixou uma carta que eu só deveria ler no meu 17º aniversário. Ela
contou tudo que aconteceu. Por que ninguém nunca me disse nada? Por
que me mentiram nesses anos todos?
Tudo
que Dumbledore disse foi:
- Você
tem essa carta com você? Será que eu poderia vê-la, por favor?
Harry
a tirou de dentro do bolso e entregou-a a Dumbledore. Sirius foi vê-la também,
e os dois pareciam admirados.
- É a
letra de Lílian, sim – confirmou ele – A carta é autêntica.
-
Extraordinário – repetiu Dumbledore, admirado – Vocês conseguiram esconder muitas
coisas de mim.
Sirius
disse:
-
Dessa vez eu não tenho nada a ver com isso. Thiago e Lílian esconderam isso de
todos nós.
Sentindo-se
negligenciado, Harry quis saber:
-
Então vocês não sabiam? Mas como não sabiam de uma coisa dessas?
- Eles
simplesmente não contaram para ninguém, Harry – disse Sirius – Provavelmente
para proteger você.
- Para
me proteger?
Dumbledore
explicou:
- Se
Voldemort soubesse que o menino da profecia era filho de um de seus Comensais,
ele teria pedido sua cabeça numa bandeja de prata. Seu verdadeiro pai teria
sido obrigado a arrancar você de Lílian e entregado a Voldemort para ser
sacrificado.
Harry
indagou:
- Ele
faria isso?
- Sim
– disse Dumbledore pesadamente – Há algumas coisas sobre Severo que você não
sabe. Uma delas é que ele já estava pensando em deixar Voldemort quando os
Potter foram mortos. Foi ele que deu o alarme de que Voldemort estava atrás
deles. Ele sempre protegeu você, Harry, mesmo quando você ainda era um bebê.
Aquilo
não arrefeceu a raiva de Harry, que se sentia traído até o último fio de
cabelo:
- Ele
nunca gostou de mim! Isso não é verdade, nada disso! Mamãe estava errada! Meu
pai é Thiago Potter!
A
porta se abriu e Lupin entrou:
-
Queria falar comigo, Dumbledore?
- Sim,
Remo. Acho que você pode esclarecer muito as coisas, já que aparentemente todos
gostavam de me deixar de fora sobre o que estava acontecendo. Eu gostaria que
você contasse a Harry a respeito de Lílian.
O
ex-professor de DCAT franziu o cenho:
- Mas
eu já falei a ele bastante no quinto ano.
- As
coisas mudaram, Remo. Harry quer saber sobre Lílian e Severo.
- Oh –
fez Lupin – Oh, bem. Claro que ele um dia ia saber. Mas isso não tem nada a
ver, Harry, não houve nenhuma conseqüência desse namoro.
Sirius
fez um ruído de gozação e disse:
-
Remo, tem uma conseqüência de 17 anos na sua frente que está muito ansioso por
informações.
- Do
que está falando? O que é que você – interrompeu-se – Oh! Não! Não pode ser
verdade!
Dumbledore
disse:
-
Lílian deixou uma carta explicando tudo.
Lupin
ainda estava boquiaberto:
- Mas... e Thiago? Ele era doido
por Harry. No primeiro Natal, ele comprou uma
vassourinha de brinquedo para você, Harry, e vocês dois ficavam fazendo a
vassourinha voar pela casa inteira. Lílian tentava ficar brava com a bagunça
que vocês aprontavam, mas quando ela via a carinha que você fazia ao ver a
vassourinha voando... – Ele saiu do momento do passado – Está querendo me dizer
que Thiago não é... não é...
- Não
é meu pai – completou Harry – Isso segundo minha mãe disse nessa carta que eu
recebi ontem.
- E
seu verdadeiro pai é... Severo? Isso seria... extraordinário.
Dumbledore
insistiu:
- Mas
não de todo impossível, quero crer?
Lupin
ainda estava chocado, mas disse, olhando diretamente para Harry:
-
Lílian me ajudou muito num momento de necessidade. Sua mãe tinha o dom de ver o
melhor que as pessoas tinham dentro de si, mesmo que elas mesmas não
conseguissem ver isso.
- Você
já me disse isso – disse Harry.
- E
você pensou que eu estivesse falando de mim mesmo, mas o mesmo se aplicou a
Severo. Ela não hesitou em dar ao jovem Severo um ombro amigo e muito conforto
diante de tudo que Thiago e Sirius o faziam passar. No começo, ele a xingava,
mas algo nela o fez amolecer, e eles se tornaram amigos no sexto ano. Essa
amizade só se aprofundou, mas Lílian só contou isso para mim. Thiago e Sirius
jamais deixariam Severo em paz se soubessem. Então eles namoraram às
escondidas. Eu mesmo não posso lhe dizer muita coisa sobre esse tempo, Harry,
porque Lílian só me contou fazendo-me prometer que eu jamais diria nada para
Sirius ou Thiago, ou eles iriam implicar com Severo. Eu não sei como é hoje em
dia, mas naquele tempo, havia muita rivalidade entre as casas, especialmente
entre Grifinória e Sonserina – especialmente devido à ascensão de Voldemort.
- E
foi isso que os separou – Voldemort?
Lupin
assentiu, continuando:
-
Lílian sofreu muito quando Severo se juntou a Voldemort. Eu soube que eles
terminaram, mas logo Thiago começou a namorá-la. Ela engravidou e eles se
casaram, mas eu nunca poderia supor que o filho não era de Thiago. Na verdade,
eu me lembro de ter ficado feliz porque Lílian parecia ter esquecido Severo e
seguido adiante com sua vida. Você me pareceu uma bênção, Harry, pois assim ela
definitivamente deixaria Severo para trás. Sem contar que agora ela era mulher
de um de meus melhores amigos, e isso tudo me pareceu um final perfeito.
Harry
se virou para Sirius:
-
Então você não sabia que eles namoraram?
- Eu
só soube mais tarde, Harry – disse Sirius – E eu me lembro de ter ficado
furioso com Snape. Quase fui tomar satisfações com ele, mas Thiago me fez
desistir, dizendo que não valia a pena. Agora pensando bem, acho que Lílian
estava grávida, e Thiago disse que não queria aborrecê-la com coisas que tinham
ficado no passado. Mas eu não perdi a oportunidade de enchê-lo de desaforos
quando ele me... procurou, muito tempo depois.
- Ele
procurou você?
- Para
avisar que Voldemort estava atrás de seus pais. Eu disse coisas horríveis para
ele.
-
Coisas horríveis?
- Eu
disse para ele se afastar de Lílian, e que ela agora era mulher de Thiago e
tinha um filho para se preocupar. Claro, eu disse outras coisas também –
sabendo que ele era um Comensal. Ele também me disse coisas horríveis.
-
Snape?
Sirius
assentiu:
- Ele xingou
sua mãe de... você sabe, de... sangue-ruim.
Harry
já tinha visto Snape fazendo isso, quando ele viu a memória na penseira, no
quinto ano. Mas outra coisa o preocupava naquele momento:
-
Ele... não sabia.
Dumbledore
disse:
- Está
claro que não sabia, Harry, e eu tenho certeza de que ele não sabe até hoje.
Como todos nós. Foi um segredo que Lílian e Thiago levaram com eles.
Harry
abaixou a cabeça. Ele não sabia o que pensar. Dumbledore chegou perto dele e
disse:
-
Harry, você é livre para fazer o que quiser com essa informação. Você pode
escolher ignorá-la, mas eu não acho que isso será justo com um homem que sequer
sabe que é seu pai. De qualquer forma, essa informação não sairá dessa sala,
você sabe. Mas você tem um pai, e acho que gostará de saber como é ter um, já
que você nunca teve.
A
raiva cresceu dentro de Harry ao sentir que Dumbledore mais uma vez o
manipulava para algo que ele ainda não tinha certeza. Era isso que o bode velho
fazia: manipulava as pessoas.
Num impulso, Harry gritou:
- Meu pai me odeia! Em que isso é melhor do que não ter um pai?!
Lupin
disse:
-
Harry, ele nem sabe que você é filho dele. Não o julgue sem –
A
raiva de Harry só aumentou:
- Ele
já me julgou! Desde o primeiro dia que colocou os olhos em mim! E ele me odeia!
- Você
sabe que isso não é verdade – insistiu Lupin, chegando perto do rapaz – Você
precisa dar a ele pelo menos uma chance de conhecer a verdade.
Harry
calou-se e abaixou a cabeça, pois as lágrimas ameaçavam saltar de seus olhos.
Lupin abaixou a voz e insistiu:
- Ele
pode ter rejeitado o Harry que ele pensava ser filho de Thiago, mas ele não
rejeitou o Harry filho de Snape. Compreendo que você esteja com medo de uma
rejeição que lhe parece provável, mas isso não é muito justo, e eu nunca soube
que você fosse uma pessoa injusta, Harry. Ser injusto simplesmente não é
grifinório.
Uma
mão se colocou no ombro de Harry e Sirius disse:
- Nós
estamos do seu lado, Harry. Pode contar conosco.
Uma
lágrima caiu de seus olhos e Harry rapidamente a secou. Ele indagou:
-
Posso contar a Rony e Hermione?
- O
segredo é seu, Harry, você pode contar a quem quiser – disse Dumbledore – Mas
tenha em mente uma coisa: se isso parar nos ouvidos de Voldemort, o risco
aumenta não só para você, mas também para Severo.
Harry
percebeu a importância do que estava acontecendo ali e disse:
- Entendo.
Mas eu gostaria de um tempo para pensar nisso.
- Claro.
Não há pressa. Severo está numa missão para Ordem, e deve demorar algum
tempo. Seria interessante que você usasse esse tempo para pensar.
Aquilo
pareceu bastante razoável a Harry, que disse:
- Sim,
senhor.
Sirius
tentou animá-lo:
- Ei,
que tal uma atividade divertida? Quer me ajudar a alimentar Bicuço? Tenho
certeza de que ele vai ficar feliz em vê-lo.
Harry
sorriu, feliz de estar com seu padrinho.
Sem
saber, claro, por quanto tempo Sirius ainda seria seu padrinho.
Harry
estava arrumando seu quarto na manhã seguinte quando ouviu uma voz conhecida na
porta de seu quarto:
-
Harry!
-
Rony!
-
Cara, o que é que você está fazendo?
-
Dando um jeito por aqui! Eu vou passar o resto do verão com Sirius!
- Que
legal!
-
Quanto tempo você pode ficar?
- O
resto do verão também. De alguma maneira, Dumbledore convenceu minha mãe que eu
viesse sozinho. Gina só chega uma semana antes das aulas começarem. Você sabe,
só falta nós dois para nos formarmos em Hogwarts.
- Fred
e Jorge deram notícias da loja?
- A
Geminialidades Weasley está entrando no seu segundo ano com um ano promissor
adiante. Essa é a época do ano que eles têm maior movimento. Sabe que eles
estavam querendo colocar uma foto sua na parede da loja?
-
Minha? A troco?
- Ora,
afinal, você foi praticamente sócio-fundador do investimento. Se não tivesse
doado o prêmio do Torneio Tribruxo...
- Eu
disse que eles deveriam fazer as pessoas rirem, e é só isso que eu quero. E
pode ir esquecendo essa história de retrato na parede.
- Como
você conseguiu vir para cá? E os seus tios?
- Eles
devem ter recebido um aviso de que eu iria direto para Hogwarts. Minha tia viu
um duende de Gringotts e ficou possessa. Foi bom mesmo eu ter saído de lá. Eles
iriam ficar cada vez mais nervosos.
- Um duende
de Gringotts? Mas eles não deixam o banco. Meu
irmão falou que é raro eles terem uma entrega especial para fazer.
- Pois
eles fizeram uma entrega desse tipo na minha casa faz dois dias.
- Por quê?
Em
pouco tempo, Harry contou tudo a Rony, inclusive a conversa com Sirius, Lupin e
Dumbledore na manhã do dia anterior. A reação do amigo ruivo foi previsível:
-
Cara, eu é que não queria estar na sua pele. Filho do Snape? Ew!
- E eu
vou ficar parecido com ele! Os feitiços que me deixavam parecido com Thiago
Potter vão se dissolver.
Os
olhos marrons de Rony se arregalaram:
- Não
aquele nariz! Você não pode acabar com aquele nariz!
- Eu
juro que mudo aquele nariz com mágica – disse Harry – Mas eu ainda tenho minhas
dúvidas.
- Você
acha que sua mãe pode ter se enganado?
Harry
assentiu:
- É
que eu sou tão parecido com Thiago, e não é só fisicamente, entende? Sou
Apanhador que nem ele... Tenho esse talento para encontrar problemas que nem
ele... Meu Patrono é um veado, e ele era um veado como animago. E o Chapéu
Seletor me colocou em Grifinória.
- Mas
você falou que ele queria te colocar em Sonserina, e você foi quem escolheu
Grifinória.
Harry
estava muito inseguro quando abaixou a voz e indagou:
- Rony... Você
acha que isso é verdade?
Será que eu sou filho do Snape?
O
ruivo deu de ombros:
- Eu
não sei, cara. Você não parece ser filho dele nem em sonho. Quem sabe você faz
um daqueles testes que os trouxas fazem, sabe? Panamá? PMA? RNA?
- DNA
– corrigiu Harry – É, isso é uma boa idéia, Rony. Mas a mamãe ia saber direito
quem é o meu pai, não é? Você leu a carta.
- Ah,
Harry, eu não sei. Você não tem nada em comum com Snape. Ela pode ter se
enganado.
- É
que eu fico pensando...
- O
quê?
- Se
fosse diferente, se eu tivesse uma outra mãe ao invés de outro pai, eu não
seria parente dos Dursley e nunca mais precisaria voltar para Little Winghing.
- É,
mas parece que a única certeza que você tem é que você tem sangue dos... dos...
como é mesmo o nome de sua mãe?
- Evans. Eles eram trouxas.
- Isso.
Você tem sangue Evans – Rony meneou a cabeça – Deixa eu te dizer, Harry, você
realmente tem atração por problemas.
- É –
suspirou Harry, fazendo uma careta – E isso tudo tem que permanecer secreto,
Rony. Pelo que Dumbledore falou, se Voldemort – Rony deu uma estremecida de
leve – souber disso, vai pensar que todos seus aniversários chegaram ao mesmo
tempo.
- Tudo
bem, eu não falo nada. Mas e a Hermione?
- Eu
vou falar com ela depois, claro. Não teria como esconder isso dela. Ela ia
terminar descobrindo de qualquer jeito!
- É,
ela é danada. Mas vamos falar de outra coisa. Soube que As Esquisitonas estão
para lançar um CD trouxa!
-
Puxa, jura?
- Eu
vou ter que ouvir num diskwalk.
- É
diskman. Um tocador de CD portátil.
- É
isso! Puxa, não é à toa que meu pai adora falar com você. Você sabe de tudo que
é coisa trouxa!
Durante
as próximas horas, os garotos puseram a se comportar como dois rapazes de 17
anos, rindo e brincando, até que Sirius os chamou para ajudar no jantar. E foi
durante o jantar que Sirius disse:
- Ouvi
Moody dizer que vai haver uma reunião da Ordem da Fênix essa noite.
Harry disse:
- Tudo
bem, Rony e eu vamos lá para cima.
-
Snape estará presente.
Harry
ficou parado um minuto, sem saber direito como reagir.
- Eu
posso pedir que ele fique um pouco mais, depois que a reunião acabar –
continuou Sirius, olhando para Rony, que tinha arregalado os olhos – Isto é, se
você quiser, Harry.
Agora
os dois olhavam para Harry, que sentiu uma tonelada de borboletas se alojando
repentinamente em seu estômago – e nada disso tinha a ver com o cozido que
Sirius preparara para o jantar.
- Bom,
eu... Eu acho que vou querer, sim, Sirius.
- Tem
certeza, cara? – disse Rony – Ninguém vai dar bronca em você se não quiser.
- É
uma coisa que eu tenho que fazer, Rony. E não adianta eu ficar adiando muito.
Sirius abriu um sorriso:
- Esse
é meu garoto.
Eu posso ficar com você quando você for falar
com ele.
- Não, Sirius, obrigado. Eu... acho que tudo ficará melhor se nós ficarmos sozinhos.
-
Olhe, Harry, eu ficarei por perto, se ele começar a dificultar sua vida. Você
sabe, daquele jeito dele.
-
Obrigado.
Sirius
arrumou para que eles se encontrassem na biblioteca, o mesmo lugar onde Harry
se reunira antes com Lupin, Sirius e Dumbledore. Aquele parecia ser o cômodo da
casa onde as revelações eram feitas.
- Seu
querido padrinho disse que você tinha um assunto importante para falar comigo –
disse Snape, olhando para Harry com ar superior – Eu mal imagino o que possa
ser.
Harry
olhou para ele, as borboletas no estômago todas alvoroçadas ao mesmo tempo. Ele
entregou a carta e disse:
- Eu
recebi isso há dois dias. Acho que vai preferir ler.
Com ar
de quem estava ali a contragosto, Snape pegou a carta, dizendo:
-
Duvido muito.
Mas as
feições no rosto de Snape foram se modificando à medida que ele lia a carta. As
borboletas no estômago de Harry dançavam tresloucadamente, e ele passou a
torcer as mãos uma na outra.
Snape
terminou de ler a carta, dobrou-a e entregou-a de volta, indagando
cuidadosamente – mas sem aparência hostil:
- Isso
é alguma brincadeira, Potter?
- Não
é brincadeira coisa nenhuma – disse o rapaz, tentando se controlar – Estava
guardada durante todos esses anos no banco Gringotts. Um duende veio entregar.
Quase matou minha tia de susto.
-
Mesmo? – Snape se ergueu e andou pela biblioteca – Alguma chance dessa carta
ser forjada?
- Eu
acho que não, senhor. Remo Lupin disse que a letra é de minha mãe.
Snape
concedeu:
- A
letra é mesmo muito parecida. Ainda que ela tenha sido mesmo escrita por sua
mãe, nada assegura que as informações estejam corretas. São informações às
quais eu nunca... tive acesso.
"*Ou seja, em língua de Snape, isso quer
dizer que ele não sabia de nada*",
pensou Harry. Em voz alta, ele disse apenas:
- Eu
estive pensando: os trouxas têm um teste chamado exame de DNA que é certo em
quase 100% dos –
-
Trouxas? – Snape rosnou, com desprezo – Besteira. Nós, bruxos, temos um Feitiço
de Paternidade que não deixa dúvidas. Normalmente não há necessidade de se
aplicar esse teste, porque um elo como uma gravidez geralmente implica
casamento. A sociedade bruxa é extremamente conservadora nesse aspecto. Há
também as conseqüências da execução do feitiço.
-
Ótimo! – Harry ficou aliviado – Podemos fazer esse teste de paternidade e –
- Não
tão depressa, Potter – interrompeu Snape – Feitiços de Paternidade são
realizado por curandeiros de St. Mungos com credenciais do Ministério da Magia.
A realização de um feitiço desses é questão pública, por afetar a linhagem de
famílias bruxas.
- Oh –
fez Harry – E isso sai publicado em algum lugar ou coisa assim?
- No Profeta Diário.
- Não
tem jeito de se fazer isso em segredo?
- Não.
A exemplo do Veritaserum, o Feitiço da Paternidade também requer uma poção e
uma autorização do Ministério da Magia para sua execução. Mas a princípio isso
pode ser arranjado. Eu... possuo certos contatos no Ministério. Mas é
importante você saber que uma vez executado o feitiço, a decisão é final. Você
passa a ser reconhecido como filho para todos os propósitos práticos, mágicos e
legais.
- Como
assim?
Com um
suspiro alto que pareceu muito próximo de estar falando "idiota",
Snape explicou como se estivesse em sala de aula:
- Deixe-me
explicar devagar, Potter, e quem sabe se você apreende da primeira vez: uma vez
executado o feitiço, se o resultado for positivo, você deixa toda e qualquer
ligação com seu pai Thiago Potter. Você passa a ser meu herdeiro para todos os
propósitos legais. Serei seu guardião e certamente poderei apontar um novo
padrinho para você. Além disso, você passa a desfrutar de um elo comigo de tal
intensidade que qualquer mágica feita contra mim pode afetá-lo e vice-versa.
Claro, não estou falando de uma mera azaração entre adolescentes, mas sim de
uma maldição Inominável ou coisa desse calibre.
O
menino quis saber:
- E
isso acontece com todos os pais e filhos?
- Não,
só com aqueles que fizeram o Feitiço da Paternidade. Por isso pense bem antes
de sugerir que esse feitiço seja feito, Potter.
- Mas
o senhor vai querer fazer o feitiço, não vai? Digo, para ter certeza.
- Potter
– disse ele, mais uma vez dirigindo-se a ele como se estivesse explicando uma
poção bem complicada –, as repercussões do que você acaba de me dizer vão muito
além da mera necessidade de confirmação. Isso pode afetar o equilíbrio das
forças da Luz e das Trevas na batalha final contra o Lord das Trevas. Espero
que você tenha ao menos se dado conta disso.
-
Claro que eu sei que Vold –
- Não
diga o nome dele!
Harry
se corrigiu:
- Eu
sei que Você-Sabe-Quem vai adorar saber disso. Mas fora isso o que mais pode...?
Snape
o interrompeu:
- Se
você ainda não sabe, eu sugiro que pense nisso com afinco, Potter.
Infelizmente, essa conversa deve se encerrar nesse momento. Eu tenho uma missão
a cumprir e estou premido pelo tempo.
- Sim,
senhor.
- Vou
pensar numa solução para o Feitiço da Paternidade – anunciou – Aguarde notícias
minhas. Acredito que você vai permanecer com seu padrinho, estou certo?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Procure manter-se seguro.
Snape
virou-se, as capas esvoaçando, e deixou a biblioteca. Sirius estava perto da
porta e os dois se olharam por alguns segundos. Mas havia alguma coisa
diferente. Eles sempre se odiaram, mas naquela hora, havia algo acima do ódio.
Sirius estava com medo – medo de perder Harry. Snape não disse coisa alguma e
saiu pela porta afora.
Harry
teve que contar tudo que acontecera a Rony, e aquele ficou uma espécie de
assunto implícito entre os dois durante o dia inteiro. Mas no dia seguinte,
Harry foi ver Bicuço, e reclamou:
-
Estou entediado. Queria poder fazer alguma coisa diferente.
-
Snape não voltou mais – lembrou Rony – Bom, mas faz pouco tempo. Foi só ontem.
- É.
Sabe que eu estou pensando no que ele disse?
- Harry,
você não fala de outra coisa.
- É,
mas... Rony, e se ele for mesmo o meu pai?
- Se
ele for – Rony deu de ombros –, eu tenho que te pedir desculpas por tê-lo
chamado de babaca sebosão.
Harry
também deu de ombros:
- Pior
é que ele mereceu.
- Será
que agora ele vai te tratar melhor?
- Bom,
a gente conseguiu conversar na biblioteca. Eu tinha dúvidas se isso seria
possível.
- Acho
que ele estava em choque.
- É,
pode ser – disse Harry – Mas eu preciso pensar numa outra coisa. Vou acabar
ficando louco se continuar preso aqui dentro. Já sei: vamos sair! Vamos andar
no mundo trouxa. Você quase não conhece.
- Está
louco? Sirius não vai deixar.
- Não
vamos saber disso se não pedirmos.
Mas ao
contrário do que eles imaginaram, Sirius achou uma excelente idéia, mesmo
fazendo mil recomendações: eles deveriam sair sem chamar a atenção da vizinhança,
tomar muito cuidado com os trouxas e estar com as varinhas sempre à mão, lembrando
que eles poderiam usar o Nôitibus Andante.
Harry
levou Rony para o West End, em Londres, onde estavam os grandes shopping
centers, e eles se divertiram muito, seja em locais para jogos eletrônicos,
seja olhando as lojas de discos. Rony, com seu problema de dinheiro, não podia
comprar nada, e Harry pagou um lanche no McDonald's para os dois. Os dois
estavam se divertindo muito, sem sonhar que estavam sendo vigiados por três
adolescentes de índole muito má: Duda Dursley e seus comparsas.
Harry
e Rony foram dar uma olhada no segundo shopping center quando Harry ouviu um
grito conhecido:
-
Harry Potter!
Ele
arregalou os olhos verdes para Rony:
- Rony, estou ouvindo coisas! Podia jurar que meu tio estava me chamando!
-
Nesse caso, Harry, eu estou ouvindo coisas também – ele apontou para a esquerda
– E aquele lá não é seu tio?
Harry
se virou para ver os mais de 200 quilos de tio Válter se encaminhando
rapidamente na sua direção, as gorduras balançando nervosamente, acompanhado
pelo mastodonte do Duda e seus dois amigos.
-
Harry Potter, o que você está fazendo aqui, seu moleque?
- Eu
poderia fazer a mesma pergunta! O senhor devia estar trabalhando!
- Eu
tive que sair do meu trabalho para vir apanhá-lo na rua, onde está
vagabundeando, com certeza com um desses marginais com quem você anda!
Rony
se indignou:
- Ei!
Mas o
tio Válter não tinha terminado:
- Você
fugiu da minha casa na calada da noite para ficar zanzando pela cidade, é isso?
E o seu padrinho assassino? Afinal, onde ele é que ele se encontra?
- Ele
está vindo me apanhar! – mentiu Harry – E vai trazer sua varinha assassina!
- Pois
eu estou achando que isso tudo é invenção de sua cabeça! – disse tio Válter,
apontando um dedo gordo para a cara do rapaz – Acho que você viu o nome daquele
foragido na televisão e achou que seria divertido me enganar! Você não tem
padrinho coisa nenhuma! Está mentindo para mim!
Rony tomou
as dores:
- Você
é quem está mentindo!
Harry
disse:
- Rony,
é melhor você deixar eu cuidar disso.
- Você
não é um mentiroso, Harry!
Tio
Válter disse, agarrando com força o braço de Harry:
- Pois
você vai voltar para casa comigo agora mesmo!
- Ei!
Me larga!
- Você
não pode fazer isso com ele!
- Não
se meta nisso, seu marginal de cabelo esquisito!
Foi
quando uma voz diferente se meteu na conversa:
- O
que está acontecendo aqui?
Era um
guarda. Rony arregalou os olhos: ele nunca tinha visto um. Já tio Válter disse,
sentindo-se superior:
- Boa tarde, seu guarda! Eu estou aqui tentando cuidar do meu sobrinho, sabe. O
menino tem mania de roubar em lojas, e eu o proibi de sair, mas ele escapuliu
de mim.
Harry
ficou indignado:
- O
quê?! Isso é uma mentira gorda!
O
guarda disse:
-
Respeito com o seu tio, garoto! E vê se obedece a ele.
Rony disse:
- Seu
foplicial, poflicial, er… senhor, não vê que isso é uma mentira?
- Eu
conheço garotos assim – disse o guarda – São comuns aqui no West End. Não se
meta em assuntos de família. Pode levá-lo, senhor.
Tio
Válter exibiu um sorriso triunfante:
-
Obrigado, seu guarda!
Duda e
seus dois comparsas estavam soltando lágrimas de tanto que riam. Harry sentiu
que a coisa estava muito feia para o seu lado. Antes que tio Válter o
impedisse, ele passou sua varinha para Rony e disse:
-
Pegue o ônibus roxo e avise Sirius!
-
Harry!
Mas
era tarde demais. Com tio Válter de um lado e Duda do outro, Harry foi
carregado para fora do shopping, e Rony rapidamente escapou para pegar o
Nôitibus assim que pudesse, ainda espantado com o que acabara de acontecer.
Com
alguma dificuldade e muitas sacudidas mais tarde, ele desceu do Nôitibus quando
já era noite e entrou no Largo Grimmauld o mais rápido que pôde. Ele ouviu um
diálogo ríspido vindo da sala onde a Ordem da Fênix costumava se reunir:
- Será
que nada entra nessa sua cabeça densa, Black? O menino está em perigo!
- Que
bobagem, Snape! Ele logo estará de volta. E ele não estava sozinho: estava com
Rony. Os dois estavam entediados!
- Você
é ainda mais irresponsável do que eu imaginava! Espere até Dumbledore saber
disso!
Rony
entrou gritando, espavorido:
-
Sirius! Sirius! Depressa! É o Harry!
Os
gritos atraíram Sirius, que não estava sozinho. Com ele, ambos saindo da
biblioteca, estava Snape, com uma das maiores carrancas que Rony já tinha
visto.
Ao ver
Snape, Rony até perdeu o rebolado. O Mestre de Poções estreitou os olhos:
-
Desembuche, Weasley! Onde está Potter?
- Aí é
que está, Professor! Harry foi levado! – e Rony contou tudo que tinha
acontecido no shopping center, até com o guarda.
Os
olhos de Snape soltavam um brilho positivamente feroz ao dizer,
sarcasticamente:
-
Bravo, Black! Não apenas você conseguiu perder seu precioso afilhado, mas
também terá que resgatá-lo da casa dos tios. Teria sido ainda mais interessante
se ele tivesse sido levado por uma força-tarefa de Comensais!
Rony
disse, apavorado:
- Eles
vão trancar o Harry, eu sei que vão! A cara do tio dele era tão ruim quanto a –
ele ia dizer "do Snape", mas conseguiu se controlar a tempo – da
minha mãe quando Fred e Jorge aprontam para valer!
Sirius
parecia aflito:
- Eu
preciso fazer alguma coisa! Mas não posso ir! Eu não posso me arriscar a sair,
Snape!
- Ah,
claro – disse Snape, ainda mais sarcástico – Você poderia ser capturado e
voltar para Azkaban, e isso seria uma perda irreparável. Não se preocupe,
Black, eu não estava contando que você fosse fazer o resgate. Diga-me, Weasley:
sabe onde moram os tios de seu amigo Potter?
Rony
deu o endereço e Snape aparatou até o local. Teve sorte que era de noite, e
ninguém viu um homem maduro aparecer na porta da garagem dos Dursley com um
estalido alto de mágica. Snape arrumou suas capas e foi até a porta da frente.
Uma mulher magra atendeu:
- Sim?
Numa
voz baixa e ameaçadora, ele anunciou:
- Eu
vim buscar Potter.
Tia
Petúnia ficou branca e deu dois passos para trás:
-
Você... você é um deles! Não! Válter! Aaaahhh!
Ela
recuou, espavorida, andando de costas até chegar à escada. Snape entrou na casa
e indagou, já de varinha em riste:
- Eu
só vou perguntar uma vez: onde está Harry Potter?
Tio
Valter apareceu no alto da escada e indagou:
- Quem
é você?
Snape
apontou a varinha para ele e disse:
- Não
gosto de me repetir. Vim buscar Harry Potter.
-
Seu... seu… anormal! – Petúnia já estava atrás do seu volumoso marido, e Duda
estava tentando ver o que se passava – Saia da minha casa!
Snape
ameaçou subir a escada:
- Não
sem o que eu vim buscar. Diga-me... onde... está Potter.
Um
raio saiu da varinha e estourou o quadro de Duda ao lado da família
encurralada. Os três gritaram de susto e o foi o menino que apontou um dedo
gordo, dizendo:
-
Embaixo da escada. Ele está no armário embaixo da escada.
-
Duda!
-
Mostre-me.
Trêmulo,
o garoto volumoso como o pai desceu a escada, sempre sob a mira de uma varinha,
e mostrou onde ficava a porta.
- Está
trancado. Meu pai tem a chave.
- Isso
não será necessário – garantiu Snape – Alohomorra!
Por um
minuto, Snape não teve certeza do que estava vendo, além de um ambiente escuro,
empoeirado e insalubre. Firmando os olhos, ele viu nesse ambiente um garoto de
17 anos, aparentemente desacordado, enrodilhado para caber numa cama em que mal
caberia um menino de 10 anos. Harry. Ele respirava
com dificuldade, seu braço estava num ângulo todo errado e sua perna parecia
solta.
-
Potter – chamou Snape – Potter!
Sem
resposta.
Uma
raiva negra e devastadora foi subindo pelas estranhas do Mestre de Poções. Na
sua voz mais devastadora, ele perguntou aos Dursley:
- O
que há com ele?
Tio
Válter ficou vermelho e estufou o peito, dizendo:
-
Nada!
Snape
apontou a varinha com determinação contra ele, insistindo:
- O
que vocês fizeram com ele?
- Ele
só caiu da escada – disse tio Válter – É um idiota desajeitado!
A
raiva subiu mais ainda e Snape se dedicou a retirar o rapaz de dentro do
armário com cuidado, sem acordá-lo. Harry pareceu sentir um mínimo de dor. Snape
conjurou uma maca e pousou Harry suavemente nela. Os Dursley se apavoraram ao
ver mágica em ação, e Snape sentiu que isso podia ser uma vantagem. Ele apontou
a varinha diretamente contra o garoto balofo:
- Você! Venha aqui.
Tia
Petúnia gritou:
-
Deixe meu Dudinha em paz!
A
varinha de Snape mudou de alvo e um raio atingiu Tia Petúnia. Imediatamente os
dois outros olharam para ela e viram quando ela simplesmente parou de se mexer,
apenas os olhos continuavam indo de um lado para o outro, rapidamente. Havia
pavor nos olhos dela.
-
Petúnia!
-
Mamãe...!
Snape
se virou para Duda e ameaçou, numa voz baixa:
-
Prefere receber o mesmo tratamento ou vai me contar o que realmente aconteceu?
Apavorado,
chorando, o menino respondeu:
-
H-Harry estava no q-quarto, de c-castigo. Mas aí a coruja dele chegou fazendo
barulho, e papai se irritou muito. Tirou Harry do quarto e disse que ia
trancá-lo no armário. Harry protestou e papai deu um chute nele, e ele rolou
pela escada abaixo. Ele chegou lá no chão embaixo e chegou a se levantar, mas ele
estava tonto e meio verde. Aí ele vomitou um pouco no chão, e... e... bom,
papai ficou muito bravo por causa da sujeira.
Snape
quis confirmar:
- Ah,
ele ficou bravo?
Os
dois Dursley estremeceram de pavor. Petúnia, se pudesse, teria feito o mesmo,
mas piscou apavorada.
Duda
terminou rapidamente:
-
Depois papai trancou Harry no armário.
Snape
ressaltou:
-
Potter aparentemente tem uma perna quebrada e um braço com uma severa luxação.
Ele não poderia ter andando até dentro do armário – Duda tremeu ainda mais –
Então, pergunto, como ele chegou até o armário? Diga!
- Papai –
- Duda!
- ...
chutou ele para dentro. Com força.
Num
acesso de raiva, Snape apontou a varinha para o garoto e ele começou a se
erguer no ar. Com os braços abertos, apavorado, ele começou a gritar e a tentar
se agarrar em qualquer coisa perto, mas foi flutuando lentamente até o teto,
onde ficou parado, chorando.
Snape
disse, sarcástico:
- Reze
para que nenhuma corrente de ar o leve para fora. Não sei aonde iria parar.
Duda
teve suas memórias modificadas, então ele não podia se lembrar do que tinha
acontecido há três anos com sua tia Guida, ou saberia que ele estava bem
parecido com ela – exceto que ele não estava inflado. Harry tinha provocado o
acidente com tia Guida no terceiro ano, quando ela tinha insultado os pais de
Harry. Tia Guida ela tinha saído voando pela janela e só tinha sido encontrada
ao sul de Sheffield, segundo Harry soubera mais tarde.
Quando
Duda pareceu se estabilizar no teto da sala, Snape apontou sua varinha para tio
Válter e os olhos pretos do Mestre de Poções brilharam sinistramente:
- E
agora? Que devo fazer a você para ensiná-lo a nunca mais bater numa criança sob
seus cuidados?
Agora
o tio Válter não estava mais vermelho e furioso. Ele estava branco, suando,
tremendo e choramingando:
- Por
favor, senhor... Não me mate...
- Isso
seria bom demais para você – rosnou Snape – Mas talvez se seus padrões morais
fossem elevados, você poderia refletir com outros olhos sobre o que acaba de
fazer com seu sobrinho.
Um
toque de varinha, um feitiço, e lá se foi o tio Válter para o teto. Só que ele
tinha uma diferença em relação a Duda: seu centro de gravidade tinha sido
trocado. Com isso, ele estava de pé no teto – mas de cabeça para baixo, incapaz
de se desvirar.
- AHH!
– fez tio Válter – Tire-me daqui! Ponha-me no chão!
- Silencio! – enunciou Snape, e nenhum
outro som saiu de tio Válter, embora ele abrisse a boca e tentasse gritar –
Agora sim, sem barulho, você poderá meditar sobre aquilo que conversamos.
Tia
Petúnia também não podia emitir qualquer som, mas os olhos estavam voltados
para cima, acompanhando o marido e filho perambulando pelo teto. Só se ouviam
os choramingos de Duda.
-
Fiquem todos gratos – garantiu Snape – que eu não os transformei em sapos ou
algo assim. Não que não merecessem, mas não sei se Potter aprovaria essa
atitude. Mas é só ele me pedir que eu volto aqui e termino o serviço. Agora, se
me derem licença, foi uma noite adorável, mas tenho mais o que fazer.
Boa-noite.
E sem
nem olhar para trás, desparatou, levando consigo a maca de Harry, o jovem ainda
desacordado.
Vozes
distantes pareciam se aproximar dele.
- ...
acho que é só isso, Severo. Qualquer coisa que precisar, pode me chamar na
lareira.
- Não
creio que seja necessário, Madame Ponfrey – era a voz de Snape – Acredito que
estarei bem.
- Foi
bom que ele tenha dormido a noite toda. Lembre-se, ele ainda precisa de dois
dias inteiros de cama. Repouso absoluto. E uma semana antes que ele se aventure
numa vassoura, para dar tempo aos ossos se reconstituírem.
- Entendido.
-
Agora devo ir. Boa-sorte, Severo.
-
Agradeço sua ajuda, Madame.
Ruídos
de portas e passos, e Harry sentiu dificuldade em abrir os olhos. A cabeça
ainda girava um pouco, e ele sentiu uma pontada de dor nas costas quando se
mexeu, tentando se sentar na cama, gemendo.
- Não
foi um movimento nada inteligente.
Harry
abriu os olhos finalmente e se viu num aposento com as paredes de pedra.
Obviamente ele estava em Hogwarts, numa ampla cama de dosséis, num quarto bem
maior do que seu alojamento na Torre de Grifinória. Snape o encarava, com um
frasco de poção na mão.
-
Antes de qualquer coisa, tome isso – ele pegou outro na mesinha de cabeceira –
E mais esse.
Harry
obedeceu, gemendo um pouco de dor, e sentindo o gosto pronunciado de ervas. Ele
fez uma careta depois do segundo vidrinho:
- Que
houve?
- Tive
que removê-lo dos cuidados amorosos dos seus tios na noite passada. Você está
dormindo desde então.
- Oh –
Harry ficou vermelho – Desculpe, professor.
- Por
que está pedindo desculpas?
- Pelo
trabalho que estou dando. Mas acho que o senhor exagerou. Eu teria ficado bom
em alguns dias.
Snape
deu um suspiro aborrecido:
-
Dificilmente, por isso eu o trouxe a Hogwarts e não de volta para a casa de seu
querido padrinho. Duas costelas trincadas, perna e braço fraturados e
hemorragia interna não desaparecem em alguns dias, Sr. Potter.
Harry
disse, ainda mais vermelho:
-
Eu... caí da escada.
-
Potter, você foi empurrado da escada – pronunciou Snape bem devagar – Por que está
tentando defender seus agressores?
-
Eu... eu... – Harry estava extremamente embaraçado – Eu sempre tinha que dizer
que a culpa era minha se eu me machucava.
- Você
não é Longbottom. Aliás, nem Longbottom seria tão desastrado.
- Como
assim?
-
Madame Pomfrey fez um exame cuidadoso de seus ferimentos e descobriu outros
mais antigos, que não foram tratados. Ficou claro que o "carinho" de
seus tios vem de longa data.
Harry
não podia ficar ainda mais vermelho, mas ele conseguiu. E se sentia um
fracassado.
Snape
sentou-se na cama e disse, numa voz macia e agradável, uma que Harry nunca
tinha ouvido:
- O
que você está sentindo é muito comum em lares onde as crianças são espancadas –
Harry olhou para ele alarmado; ele nunca tinha se sentindo
"espancado" – Acredite, eu já vi isso acontecer com muitos dos meus
sonserinos. Parece que não é comum em famílias grifinórias, ou McGonagall teria
visto os sinais em vocês. Se bem que, como sempre, Potter, você é um caso
totalmente à parte. Como ficariam os poderes de Hogwarts se fosse descoberto
que o Menino-Que-Sobreviveu e salvador do mundo bruxo era espancado na casa de
seus parentes trouxas?
- Olhe
– tentou dizer Harry –, não é nada disso. De vez em quando meu tio gosta de me
dar um tapa ou dois, o filho dele também. Nada de mais. Mas dessa vez eu sei
que foi diferente. Ele estava possesso e eu tentei me defender. Só que precisei
tirar Edwiges a tempo – aí ele me pegou desprevenido.
- Na
verdade, ele pegou a nós dois desprevenidos – confessou Snape – Se eu tivesse
tido tempo, teria dado a todos eles uma lição mais... duradoura.
Harry
arregalou os olhos:
- O
que fez? Eles… estão vivos, não estão?
-
Contra meus melhores instintos, eles estão vivos. Não fiz nada de permanente ou
devastador contra eles. Achei que você não aprovaria.
-
Obrigado.
- Mudando
de assunto, Madame Pomfrey me deixou encarregado de sua recuperação. Ela está
com sua irmã em Gales. Você não deverá deixar essa cama por dois dias, e deve
se manter longe de encrencas durante uma semana para dar tempo a seus ossos de
se recuperarem. Seu adorável padrinho mandou suas coisas para cá e você deverá
ficar em Hogwarts pelo resto do período de férias.
*E com Snape. Mas que alegria*, pensou Harry desanimadamente. Depois ele lembrou que pelo
menos não teria que voltar aos Dursley.
Snape
foi direto ao ponto:
- Já
que você ficará nas masmorras, as regras de convivência devem ser simples.
Quando estiver melhor, poderá ocupar-se com o que bem entender e fazer seus
deveres de verão, mas quero-o de volta a esses aposentos na hora do jantar. As
proteções já estão programadas para reconhecer você. Exijo limpeza e arrumação
suficientes para a convivência não ser um fardo para nenhum dos envolvidos.
Você pode receber seus amigos, desde que me avise com antecedência para que eu
possa dar uma senha temporária a eles e retirar-me por um tempo razoável evitando
a presença deles. Você concorda com essas regras, ou tem algo que queira
acrescentar?
Harry
ficou abismado:
-
Eu... posso discordar?
Snape
deu outro suspiro aborrecido:
- Isso
não é a sala de aula, Potter. Eu espero que você consiga se comportar de acordo
com as normas básicas de convivência e civilidade.
- Sim,
senhor.
- Um
lembrete: sua saúde é prioridade, e eu tenho autoridade para interferir em
qualquer circunstância que eu julgue estar ameaçando sua recuperação. Não
espere que eu aja como Black, concordando em saídas irresponsáveis pelo mundo
trouxa apenas porque você estava entediado. Espero que isso esteja bem claro.
- Sim,
Prof. Snape.
- No
momento, acho melhor você comer alguma coisa, Potter, e depois descansar. Você
deverá tomar suas poções no horário. Isso o deixará praticamente dormindo esses
dois dias, mas você precisa desse sono para se recuperar dos danos internos.
Harry
de repente sentiu que aquele bando de regras mais parecia um regime militar.
- Entendo,
senhor.
-
Voltarei já com seu almoço.
Foi
Dobby quem trouxe o almoço, e o elfo parecia querer fazer de tudo para ajudar
Harry em sua convalescença – da maneira de Dobby, claro. Enquanto Harry comia,
Dobby ficou ali, tentando ajudar. Harry comeu o almoço mais depressa que pôde.
Ele
esperava Snape vir com uma poção, mas em lugar disso quem apareceu depois do
almoço foi o Prof. Dumbledore.
-
Trago boas notícias, Harry. – O velho parecia entusiasmado. – Tivemos muito sucesso,
muito sucesso mesmo.
-
Prof. Dumbledore, eu lamento todo o trabalho que estou dando, eu –
-
Esqueça isso, Harry, meu rapaz. Escute: pelo que o Prof. Snape me disse, você
gostaria muito de fazer o Feitiço da Paternidade, é verdade?
Harry
sentiu-se meio constrangido:
- Bom,
senhor, só o que eu gostaria era de uma confirmação sem dúvidas de quem é meu
pai. Mas isso parece estar dando muito trabalho, então eu acho que podemos
simplesmente deixar tudo como está e –
-
Bobagem, meu rapaz, bobagem! – Dumbledore tinha os olhos brilhando – Procurar
uma maneira de efetuar o feitiço foi uma grande vantagem para a Ordem da Fênix.
Graças a você, conseguimos recrutar um excelente curandeiro de St. Mungo's,
credenciado no Ministério da Magia.
- Mas
Prof. Dumbledore, isso não vai tornar tudo público?
- Não
necessariamente, de acordo com esse curandeiro. O nome dele é Seymour
Hafflehub. Ele sabe que você está de repouso, e virá aqui amanhã de manhã para
efetuar o Feitiço. Fomos muito fortuitos. Hoje ele fará uma verificação
semestral de varinha e isso nos dará seis meses para encontrar uma solução.
-
Desculpe, mas eu não entendi.
- Os
curandeiros credenciados têm suas varinhas verificadas uma vez a cada seis
meses, usando o Priori Incatatem. Assim, se aparecer algum feitiço que não foi
reportado, ele é descoberto e passa a fazer parte dos registros. Mas a
verificação semestral de Seymour será hoje, então ele ficará...
Harry
raciocinou, entusiasmado:
- Ele
vai ficar seis meses sem ninguém verificar sua varinha e ninguém vai descobrir
o Feitiço da Paternidade durante seis meses! É brilhante, senhor!
- Não,
Harry, não é brilhante, mas é o máximo que pudemos arranjar. É satisfatório
para você?
- O
feitiço é mesmo garantido? Não há possibilidade de erro?
- Não
há erros para esse feitiço. Você conhecerá, sem dúvida alguma, quem são seus
verdadeiros pais. Está preparado para isso?
Harry
suspirou, depois assentiu, determinado:
- Sim,
senhor. Eu preciso muito saber.
- Está
bem – disse Dumbledore – Amanhã de manhã você saberá. Mas quero que você se
lembre de uma coisa, Harry, seja qual for o resultado desse feitiço: o Prof.
Snape sempre salvou sua vida, e foi ele quem o resgatou da casa de seus tios. Mesmo
que ele não seja seu pai, ele sempre zelou por seu bem-estar, além do chamado
do dever. Procure se lembrar disso.
Aquilo
fez Harry sentir uma pontada de culpa.
- Sim,
Prof. Dumbledore.
- Bom
garoto. Agora tome sua poção e procure relaxar. Madame Pomfrey espera uma
coruja dizendo que você está descansando bastante.
Ele
não tinha saído quando Snape voltou, trazendo um vidrinho com uma poção roxa.
Harry já sabia o que era aquilo: Poção Sem Sonhos. Ele tomou o vidro inteiro e em
questão de minutos estava adormecido.
***
Harry
não tinha noção das horas quando Snape o acordou. O menino fez a higiene
matinal e pensava em trocar de roupa quando o Mestre de Poções lhe deu um
roupão e disse:
- O
curador Hafflehub está se dirigindo para cá. Tire a camisa do pijama e use
isso.
Harry
não entendeu direito, mas obedeceu. Ele mal tinha se enfiado debaixo das
cobertas quando alguém bateu à porta dos aposentos de Snape. Eram Dumbledore e
o curador Hafflehub, que chegou com uma maletinha muito parecido com a de um
médico. Harry ficou olhando e notou que as semelhanças paravam aí.
Seymour
Hafflehub parecia ser tão velho quando o Sr. Olivaras, e os cabelos brancos
apareciam por debaixo do pontudo chapéu de feiticeiro que ele usava, preto de
veludo, combinando com as vestes negras, que apreciam grandes demais para ele.
O grande nariz parecia pendurado no meio do rosto, e os olhos castanhos encararam
Harry, com bolsas arroxeadas que iam até o meio das bochechas.
- Ah,
mas esse já está bem grandinho para um Feitiço da Paternidade. Agora entendo
todo o sigilo.
- Não,
Seymour – disse Dumbledore – Acredito que você vai entender rapidamente a
necessidade de sigilo quando você conhecer o menino em questão. Por isso todo o
sigilo, por isso tivemos que inventar uma desculpa para ninguém descobrir que
você esteve em Hogwarts.
- Está
bem, está bem, Dumbledore – disse o velhinho, que parecia ser bem-humorado –
Vamos ver então o que há com esse rapazinho.
Ele se
sentou na cama, sorriu para Harry e disse:
- Ora,
ora, em geral eu costumo atender bruxinhos em fraldinhas para esse serviço.
Acho que você está bem grandinho para usar fraldas. Que bom! Pelo menos o
cheiro vai ser melhor!
Algumas
pessoas costumavam achar Dumbledore um pouco senil, e meio amalucado por causa
da idade. Para Harry, essas pessoas obviamente não conheciam Seymour Hafflehub.
Ele arregalou os olhos.
O curandeiro
indagou:
- Você
está em jejum, meu rapaz?
- Sim,
senhor.
-
Ótimo. Comida pode exigir várias leituras ao longe de várias horas. Assim a
gente resolve esse assunto de uma só vez – ele continuou sorrindo para Harry e
então seu olhar se desviou do rosto de Harry para a testa. E o seu sorriso
caiu.
- Por
Merlin... – ele disse, de olhos arregalados – Ele não é... é?
Dumbledore
confirmou:
- Sim,
Seymour, esse é Harry Potter.
-
Mas... Eu não entendo, Dumbledore. Pode haver alguma dúvida sobre quem são os pais
desse menino?
-
Novas notícias nos deixaram dúvidas sobre a paternidade de Harry, Seymour. Por
isso você entende a necessidade de sigilo?
-
Sim... sim... claro! Mas é extraordinário! – O Sr. Hafflehub se voltou para
Harry mais uma vez – Não se preocupe, rapaz, chegaremos ao fundo disso. Por
favor, queira deitar-se.
Harry
não esperava por aquilo. Ele esperava ter que cortar um fio de cabelo, dar uma
gota de sangue ou um pouco de saliva, mas não deitar-se. O Sr. Hafflehub se
ergueu da cama e chegou perto dele, buscando a maletinha:
-
Afaste as cobertas e abra o seu roupão, por favor. Isso mesmo.
Sem
nem dar tempo a Harry de respirar, o velhinho tirou sua varinha da maleta e
enfiou no umbigo de Harry – não com força, mas deu um susto danado no rapaz.
- Ui!
- Ah,
todos eles fazem isso – riu-se o Sr. Hafflehub – Isso não vai doer nada.
*Ele diz isso porque não é o umbigo dele*, disse Harry para si mesmo. Snape se mexeu
desconfortavelmente, e Harry tinha até esquecido que ele estava no quarto.
- Eclaro paternum!
Harry
olhou para a varinha enfiada no umbigo e viu que da ponta dela saiu uma luz
prateada, uma luz forte o suficiente para percorrer o interior de seu corpo e
ser observada por todos, uma luz muito brilhante que ia iluminando seu sangue,
seus órgãos internos, alguns ossos, percorrendo todo o corpo dele, dando-lhe
uma sensação agradável de calor interno como ele jamais tinha experimentado na
vida. Era uma coisa tão boa que Harry sorriu.
- Ah,
todos eles gostam – disse Haffleburn, também com uma risada – Os bebezinhos
costumavam dar aquelas gargalhadinhas de bebê, que gracinha.
A
luzinha percorreu todo o corpo de Harry e voltou para o umbigo, deixando a
ponta da varinha iluminada. O Sr. Haffleburn retirou a varinha de dentro do
umbigo de Harry e apontou-a para cima, enunciando:
- Eclaro pater!
Sempre
brilhando num tom prateado, a luz começou a se movimentar rapidamente em
círculos e logo ele viu um rosto conhecido – o rosto de sua falecida mãe e
escrito na mesma letra da carta, o nome dela apareceu em prateado. Lílian Potter.
Harry
sorriu e o rosto de sua mãe lhe sorriu de volta, sumindo em seguida.
Depois
a luzinha voltou a fazer círculos no ar, girando rapidamente, rapidamente até
formar um rosto que Harry também conhecia – e muito bem.
Mesmo
se não conhecesse, a letrinha miúda e apertada escreveu o nome de seu pai.
Severo Snape.
Depois
daquilo, as coisas meio que passaram voando pela cabeça de Harry. Ele se deu
conta, no fundo da mente, que Dumbledore acompanhou o Sr. Hafflehub até a
porta, e que Snape tinha ido com eles.
Harry
não sabia o que pensar. Claro que ele tinha pensando na possibilidade de Snape
ser seu pai, mas como uma realidade alternativa, tipo um mundo paralelo. Nunca
uma realidade ali, próxima dele.
Dobby
veio trazer uma bandeja com o café da manhã, mas Harry só comeu um pedaço de
torrada com suco de laranja, ainda meio distraído, sem responder direito às
perguntas do elfo. Antes de Harry dar o café por encerrado, Snape apareceu com
um frasco e disse:
- Beba
tudo.
Harry
pegou a poção e tomou, olhando para Snape como se jamais o tivesse visto. E por
um lado aquilo era a mais pura verdade.
Depois
que Dobby saiu, Snape recolheu o frasco de poção e disse, numa voz que Harry
nunca tinha ouvido antes:
- Acho
que precisamos conversar.
Harry
assentiu, a garganta seca demais para falar qualquer coisa.
- A
poção o fará dormir um pouco – disse Snape – Melhor tentar descansar o máximo
que puder. Voltarei mais tarde.
Harry
sentiu os primeiros efeitos da poção assim que Snape fechou a porta. Ele não
teria sequer tempo de ficar pensando naquilo. E caiu adormecido um minuto
depois.
Quando
ele acordou, parecia ser bem tarde – talvez de tardezinha. Harry tinha dormido
tanto que ainda estava com sono, e ele sentia as costelas menos doloridas.
Talvez o repouso estivesse mesmo dando certo.
Ele
foi ao banheiro e tomou um banho, observando a miríade de frascos e vidros no
chuveiro. Ao contrário do que todos imaginavam, Snape realmente sabia o que era
xampu e lavava o cabelo! Harry estava impressionado.
Quando
ele voltou para a cama, Snape saiu de uma porta lateral – provavelmente seu
laboratório particular. Harry sentiu-se constrangido e disse:
- Acho
que dormi demais.
-
Bobagem. Era exatamente isso que você deveria estar fazendo: descansando.
- Sim,
senhor.
- Não acredito que você tenha tido chance de
refletir sobre... o que aconteceu.
Harry
teve que confessar:
- Não
muito. Tipo, o senhor é meu pai, e é só isso que eu pensei até agora.
Snape
se sentou na cama, e Harry sentiu-o desconfortável. O rapaz chegou a sentir
compaixão do Mestre de Poções. Aquilo estava sendo tão difícil para ele quanto
era para Harry.
-
Presumo que devamos conversar.
- Eu
também acho – disse Harry – Eu... não sei direito o que dizer.
Snape
ergueu a sobrancelha:
- Acho
que seria um tanto inútil tentarmos ignorar tudo que aconteceu até agora. Você
é uma das minhas pessoas menos favoritas, para dizer o mínimo. Eu sempre achei suas
atitudes muito parecidas com... – ele se corrigiu a tempo – Thiago Potter.
- Foi
meio natural – disse Harry – Todo mundo sempre me disse que eu era tão parecido
com ele. Escute, eu vou ter que mudar de nome? Eu vou deixar de ser Harry
Potter?
Snape
fez um gesto com os ombros que Harry quase achou elegante:
- Só
se você quiser. Posso chamá-lo de Harry?
-
Claro. Er... posso chamá-lo de... outra coisa que não Prof. Snape?
- Você
deve me chamar da maneira que achar mais confortável, Harry. Se quiser trocar
seu nome, eu posso providenciar.
- Não,
eu... Acho que vou ficar com esse. Pelo menos por enquanto.
-
Amanhã eu estarei o dia inteiro fora cuidando de algumas formalidades que
advieram da descoberta que fizemos hoje. Quando você estiver melhor de saúde,
conversaremos melhor sobre outras implicações de nosso laço de parentesco.
- Eu
vou ter que voltar aos Dursley?
- Não
se depender de mim – disse Snape – Por outro lado, eu entendo que você queira
manter relações com a única parente viva de sua mãe.
- Está
brincando? O senhor viu como eles me tratavam! Não quero voltar lá enquanto
viver.
- Acho
melhor discutir isso com Dumbledore. Há ainda o pequeno assunto do laço de
sangue que o protege do Lord das Trevas. Acredite em mim: quando as Trevas
ficarem sabendo do que descobrimos hoje, você vai precisar de toda a proteção
que puder obter.
- Mas...
não pode ser meu guardião?
- Eu *já* sou seu guardião. Uma vez terminado
o feitiço, isso ficou magicamente estabelecido. É uma das repercussões das
quais eu lhe falei. De qualquer forma, eu costumo passar meus verões em
Hogwarts, e eu entendo que isso seja um tanto quanto... entediante para você.
- Mas
esse é o último verão que eu passarei aqui. Depois eu me formo.
- E já
sabe o que pretende fazer da vida?
- Bom,
auror é a carreira que eu mais me interesso.
-
Então você deve se esforçar para obter melhores notas. Apenas os melhores das
turmas são escolhidos para o treinamento.
- É,
eu sei.
- Não
sei o que esperava de nossa primeira conversa, Pot- quero dizer, Harry, mas
acho que as coisas serão assim por algum tempo. Aproveitando que você está
aqui, acho melhor você ver a primeira modificação que mandei trazer. Venha
comigo.
Snape
o levou à sala de onde emergiu. Era um pequeno quarto. Ali havia uma cama,
algumas prateleiras vazias e uma escrivaninha.
- Este
é o seu novo quarto. Não é muito, mas é apenas temporário até você voltar ao
dormitório de sua casa quando as aulas começarem.
- Não
vou poder ficar aqui com o senhor?
-
Harry, você passou seis anos no dormitório de Grifinória. Não acredito que meus
aposentos sejam assim tão atraentes.
- É
que... bom, nós somos uma espécie de família, e as famílias moram juntas.
- Sim,
mas regras são regras. Sinto muito.
Harry
deu de ombros:
- Tudo
bem.
Snape
tinha uma voz engraçada ao dizer:
- Eu
vou me esforçar para que sejamos uma família, Harry.
-
Posso pedir uma coisa?
- Se
for razoável, eu posso conceder.
- Não
quero que Lúcio Malfoy seja meu padrinho.
Snape
não entendeu nada:
- Mas
do que você está falando, em nome de Merlin?
- Meu
padrinho – disse Harry – Agora que eu sou seu filho, Sirius não é mais meu
padrinho, e você pode escolher quem quiser para ser meu padrinho, mas eu não
quero nenhum Malfoy para o cargo.
Aquilo
tinha sido muito difícil de dizer, e Harry estava com os olhos cheios de
lágrimas. Ele amava Sirius demais e ter que dizer adeus a ele seria a coisa
mais dolorida que ele teria que fazer.
- Você
está certo numa coisa, Harry: eu jamais convidaria Black para ser padrinho do
meu filho – Harry sentiu algo no estômago quando ouviu aquilo – Mas também
jamais teria Lúcio Malfoy como padrinho de um filho meu.
Aquilo
aliviou Harry um pouco.
-
Obrigado.
A
contragosto, Snape disse:
- Na
verdade, nada me resta a não ser aceitar o que já está estabelecido.
Harry
não entendeu:
- Como
assim?
-
Black é seu padrinho há três anos. Vocês obviamente têm alguma ligação anterior
que é forte. Eu reconheço isso. Ele pode continuar sendo seu padrinho. Se ele
quiser.
-
Sério mesmo? – Harry abriu um sorriso como se a luzinha da varinha do Sr.
Hafflehub estivesse passeando de novo pelo seu corpo – Obrigado, muito
obrigado!
Snape
ressaltou, a voz cortante como Harry já conhecia:
- Mas
se ele aprontar mais uma daquelas de deixar você solto no mundo trouxa, ele vai
sofrer as conseqüências.
- Hum,
isso é justo.
- Não,
isso é generosidade demais para aquele vira-lata pulguento. Diga isso a ele
quando você escrever para ele.
-
Edwiges está aqui?
-
Quem?
-
Minha coruja. Aquela coruja-das-neves, uma das poucas de Hogwarts.
- Ela
ainda está com Black. Vou providenciar livre passagem para ela aqui nas
masmorras.
-
Obrigado.
-
Venha, Harry – convidou Snape – Está quase na hora do jantar. Você deve estar
com fome.
Os
dois comeram juntos, na grande escrivaninha de Snape no seu escritório. Harry
se sentiu um pouco constrangido, a princípio, mas aquela era uma maneira de os
dois irem se conhecendo. Snape disse:
-
Amanhã eu não estarei aqui. Gostaria de levar você comigo, mas as ordens de
Madame Pomfrey foram explícitas.
- Eu
entendo – Harry se sentiu ousado – Prof- Quero dizer, o senhor ficou feliz com
a decisão?
Snape
pousou os talheres no prato e disse cuidadosamente:
-
Harry, eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei surpreso. Mas uma coisa é
bom aprender a meu respeito. Eu geralmente faço o que devo, e reconheço meus
deveres. Não sou dado a pequenos prazeres nem emoções. Claro que saber que sou
pai foi no mínimo, impactante. Não sou de viver no passado, mas nesses últimos
dias tenho me lembrando muito dele, a ponto de ficar imaginando o que teria
acontecido se eu tivesse tomado decisões diferentes. Essa não é minha natureza.
Não sou normalmente assim. Acho que ambos estamos muito impactados para
reconhecermos direito nossas emoções. Talvez fosse bom nos darmos conta de tudo
que isso implica, e irmos nos dando ao direito de irmos sentindo as coisas
quando elas acontecerem.
Harry
estava de olhos arregalados ao ouvir aquilo. Snape estava sendo honesto,
sincero e até gentil com ele. Ele não tinha esperado aquilo.
-
Mas... nós somos uma família?
- Mais
do que você imagina, Harry.
- Me
diz uma coisa: o senhor tem namorada?
- Não,
não tenho. Eu não tenho... perfil para essas coisas.
- Mas
o senhor não é tão velho assim.
- Não
se trata apenas de uma questão de idade, Harry. É muito... complicado e
particular.
-
Desculpe. Não quis parecer enxerido. Eu só queria ver se a família
poderia...er... aumentar.
- Isso,
Harry, é assunto para mais tarde. Mas fique tranqüilo: eu lhe prometo uma
família.
Aquelas
palavras fizeram algo engraçado dentro de Harry. A vida toda de Harry, ele
sempre quis ter uma família. Agora parecia que ele ia conseguir uma. Mesmo que
fosse com Snape, a perspectiva o fazia se sentir animado como se tivesse cinco
anos novamente.
- Já
terminou? – perguntou Snape – Rapazes da sua idade costumam comer muito mais.
- Já
terminei, obrigada.
Snape
franziu o cenho, mas não insistiu. Ao invés disso, tirou um vidro com uma poção
roxa e disse:
- Bem,
aí está. Já sabe o que fazer.
Harry
tomou a poção, fez uma careta e logo sentiu os efeitos. Ele se enfiou debaixo
das cobertas leves de verão e em minutos, estava adormecido. Seu pai o
encarava, com feições imperscrutáveis e um coração ainda pesado.
***
Harry
passou um dia inteiro praticamente sozinho, mas não era grande coisa, porque
ele passou o dia inteiro praticamente dormindo. Ele encontrou três vidrinhos de
poções, cada um com um bilhetinho: depois do café, depois do almoço, antes de
dormir. Conclusão: Harry mal ficou acordado naquele dia.
No dia
seguinte, ele deixou a cama e foi tomar um banho, pensando que, se pudesse,
ficaria acordado por três dias seguidos para compensar o tanto que tinha
dormido. Em compensação, constatou, suas costelas não doíam mais tanto quanto
antes.
Deixou
o banheiro e entrou no escritório, onde Snape o surpreendeu, esperando com a
mesa posta para duas pessoas. Harry disse:
- Bom-dia.
-
Espero que tenha descansado bastante – Snape inclinou a cabeça – Gostaria de
companhia para o café?
-
Obrigado – ele se sentou diante do prato vazio e a comida apareceu magicamente
– Resolveu tudo que tinha que resolver?
Snape
assumiu uma expressão indecifrável no rosto e ele disse, sem se comprometer:
- A
maior parte, sim. Mas acho que vai gostar de saber que consegui arranjar para
seus dois amigos virem para cá.
O
rosto de Harry se abriu no sorriso:
-
Rony?
- E a
Srta. Granger, também. Eles deverão chegar a qualquer momento, para passar
alguns dias com você.
-
Sério? Isso foi muito legal. Obrigado.
- Mas
minha palavra vale: nada de se exceder nos próximos dias. Vocês poderão
explorar o terreno em Hogwarts, mas nada de nadar no lago ou andar de vassoura.
Seus ossos ainda estão frágeis.
- Sim,
senhor.
-
Estaremos fazendo nossas refeições na sala dos professores. Espero que os três
se apresentem vestidos decentemente e limpos pontualmente no horário marcado.
- Sim,
senhor. Como eles estão vindo para cá?
- Eu
arrumei passagens para ambos no Expresso de Hogwarts, que faz essa viagem três
vezes por semana no verão. O Prof. Dumbledore concordou que eles ficassem na
Torre de Grifinória. Você prefere ficar lá enquanto eles estiverem aqui?
Harry
ficou dividido. Claro que ele queria ir para a Torre e ficar com os amigos, mas
por outro lado, era a chance de conhecer seu pai.
- Não,
eu... posso ficar aqui nas masmorras.
Ele
ainda brincou mentalmente com a idéia de que era filho do Snape. A coisa toda
parecia ainda ser um tanto quanto fantasiosa, mas parecia que o mundo estava
começando a voltar para os eixos. Com Rony e Hermione do lado dele, ele teria
mais facilidade em lidar com tudo que estava acontecendo.
O café
da manhã foi rápido. Snape alegou ter poções para fazer e convidou Harry a
assistir enquanto seus amigos não chegavam. Harry concordou, observando o
Mestre de Poções em ação. Ele imaginou que poderia usar sua recém-estabelecida
conexão paterna para pedir ajuda extra em Poções par seus NIEMs. Ele bem que
podia usar uma mãozinha.
Mas
tudo isso foi esquecido assim que Harry chegou ao portão principal de Hogwarts,
onde Rony e Hermione lutavam para trazer seus malões para dentro, ambos com os
olhos muito vermelhos e aparência cansada. Só então ocorreu a Harry que seus
amigos passaram a noite viajando. Aquilo tocou o coração do rapaz: como eles
eram seus amigos.
-
Harry! – gritou Hermione, correndo para abraçá-lo fortemente.
- Bom
ver você, Hermione – ele sorriu, sincero – Você também, Rony.
- Ei,
cara! – Rony sorriu – Como você está?
-
Agora estou melhor. Não posso fazer muita coisa ainda. Estou proibido de nadar
e andar de vassoura.
-
Soubemos o que aconteceu – disse Hermione, séria – Ainda bem que o Prof. Snape
tirou você logo daquele lugar.
Rony
disse:
-
Minha mãe mandou um monte de coisas para você. Nunca a vi tão brava como ela
estava depois que soube o que os trouxas fizeram com você.
Harry
não queria falar sobre aquilo. Ia parecer um fraco, e ele não queria se sentir
assim.
-
Vamos para a Torre de Grifinória – convidou Hermione, antes que ele abrisse a
boca – Lá você pode nos contar tudo que está acontecendo. Estou louca para
saber as novidades!
Eles
terminaram apenas deixando a bagagem na torre e foram passear perto do lago,
aproveitando o dia quente e ensolarado. Hermione tirou os sapatos e colocou os
pés na água.
-
Harry, eu nem sei como perguntar isso. Rony me falou sobre a carta de sua mãe.
Estou pasma com tudo isso que está acontecendo.
Rony
disse:
-
Harry, não precisa mais se preocupar: meu pai disse que existe um feitiço que
pode dizer quem é seu verdadeiro pai.
- Eu
sei – disse Harry, que já tinha tirado os sapatos e estava olhando para o lago
– Eu... fiz o feitiço.
Hermione
soltou um grito agudo:
-
Harry! Aquele feitiço é perigoso! Cria laços mágicos e de sangue! Você não ia
contar para a gente?
- É
claro que eu ia. Mas... não sei quando.
A
verdade é que Harry mal tivera tempo de pensar naquilo tudo, e ele ainda se
sentia dividido. Ele não sabia se estava feliz ou triste por ser filho de
Snape.
- E
aí? – quis saber Rony – O que deu?
Harry
jogou uma pedra no lago e respondeu sem olhar para seus amigos:
- Eu
sou filho dele.
Rony
soltou um assovio curto. Hermione andou até ele e indagou, preocupada:
- Como
se sente?
- Sei
lá – ele deu de ombros – Acho que ainda não me dei conta direito do que
aconteceu. Parece que é com outra pessoa, entende? Estou me sentindo muito
estranho.
- Dá
para entender – disse ela – É um assunto sério, Harry.
Rony
quis saber:
- Ele
gostou da idéia? Digo, ele te trata mal?
Harry
respondeu:
- Não
mesmo. Ele cuidou de mim quando eu me recuperava. Não foi tão babacão – ele
abaixou a voz – Ele prometeu que seríamos uma família.
Hermione
tocou o braço do amigo, emocionada:
- Oh,
Harry...
Rony
quis saber:
- É
isso que você quer?
- Bom,
eu sempre quis saber como seria ter uma família. Mas claro que nunca imaginei
que seria com Snape.
- Você
sempre sentiu falta de um pai, Harry, mesmo pensando que ele era Thiago Potter
– lembrou Hermione – E pelo que você está dizendo, Snape parece disposto a ser
um pai para você. Se você lhe der uma chance.
Harry
concordou:
- É,
e... é estranho, sabe? Ele fala comigo normalmente, agora está tudo diferente.
Não sei como explicar. Não é mais aquele nojento seboso que a gente conhece.
- Vai
com calma, Harry – disse Rony – Ele não vai mudar de uma hora para outra. Você
sabe que ele continua sendo um nojento seboso.
- Eu
sei, Rony, mas ele está se esforçando. Ele não olha mais para mim com tanto
ódio. Antes, quando ele olhava para mim, parecia sempre que queria me esganar.
Agora ele está mais... normal.
Hermione
disse:
- O
feitiço pode ter ajudado. Se é que estamos falando do Feitiço da Paternidade.
Ele cria laços entre pais e filhos. Dizem que até interfere nos sonhos.
Harry
confessou:
-
Tenho sonhado com minha mãe. Ela está sorrindo para mim, mas meu cabelo está
todo estranho e minha roupa está toda preta.
- Que
doido! – disse Rony – E você tem sentindo alguma diferença? Sabe, se aquilo que
ela disse sobre a sua aparência ir mudando gradativamente...
-
Ainda não senti nada. Mas eu olho meu nariz todos os dias, sabem, para ver se
ele está ficando em forma de gancho.
Hermione
disse:
- E se
ficar? Você vai ficar igual ao seu pai, assim como Rony tem cabelo igual ao do
pai dele. Isso é natural, Harry.
- É
que eu ainda estou tendo dificuldade para me adaptar a certas coisas. O que as
pessoas vão dizer? Será que eu vou ter que passar pelo Chapéu Seletor de novo?
- No
último ano? – quis saber Rony – Como assim?
-
Lembra que o Chapéu queria me colocar em Sonserina e eu não deixei? Agora não
tem mais nada que impeça de eu ir para lá.
- Ew!
Você vai ser colega do Malfoy!
-
Tolice – disse Hermione – Você não vai ter que mudar de casa, Harry. Não é o
que você quer e duvido que o Prof. Snape faça você passar de novo pelo Chapéu
Seletor.
Harry
deu um sorriso:
-
Sabem que ele deixou Sirius ser meu padrinho?
Rony
arregalou os olhos:
- Tá
brincando! Mas eles se odeiam! Você precisava ver como os dois brigaram quando
eu fui avisar que seu tio tinha te levado, Harry! Parecia que Snape ia avançar
em cima de Sirius!
Hermione
disse:
- Ele
sempre se preocupou com sua segurança, Harry. Mas acredito que não deva ter
sido uma decisão fácil para ele. Aliás, isso tudo não deve estar sendo fácil
para ele tampouco.
- Mas
nós temos seis meses para pensar numa solução antes que isso tudo venha a público.
Até lá, temos que manter o mais absoluto segredo.
- Mas
por quê?
-
Voldemort – disse Harry – Se Voldemort descobrir, ele vai ficar em perigo.
Rony
quis saber:
-
Harry, do que você vai chamar o Snape? De pai, papai, Snape? Desde que não
chame de "Pai", com aquele jeito afetado do Malfoy, né? Mas não pode
ficar o tempo todo chamando de "ele".
- Eu
não sei... – disse Harry, tacando outra pedrinha no lago – Ele me disse que eu
deveria usar o que achasse mais confortável. O problema é que eu não acho nada confortável.
-
Tenho certeza de que você pode resolver isso em alguns dias – disse Hermione –
Mas para isso precisa conviver mais com seu pai. Acho ótimo você ter escolhido
ficar nas masmorras com ele e não na Torre com a gente. Aproveite esse tempo
para conhecê-lo.
- Onde
ele está?
- No
laboratório dele. Disse que tinha poções para fazer.
Hermione
disse:
-
Vamos voltar. Daqui a pouco vai ser hora do almoço, e eu gostaria de fazer uma
visita a Hagrid de tarde.
Eles
foram visitar Hagrid depois de um almoço muito constrangedor, porque estavam
todos juntos na mesa dos professores, e Rony ficava olhando para Snape
disfarçadamente, quando achava que ele não estava olhando. É claro que nunca
dava certo, e Snape lançava seus olhares mais ferinos para o ruivo, fazendo-o
avermelhar-se, olhando para sua comida.
- Harry, você tem um pai! – Hagrid abraçou o
menino entusiasmadamente, e Harry sentiu suas costelas doerem – Que beleza,
Harry!
Rony
lembrou:
- É,
mas o pai dele é o Snape.
-
Bobagem! – insistiu Hagrid – O Prof. Dumbledore confia plenamente...
-...
em Snape, a gente sabe – completou Rony, nada convencido – Mas não é horrível?
Er, desculpe, Harry.
- Digo
que é bobagem. Harry tem um pai vivo, que está aceitando Harry exatamente como
ele é. Nem o deixou mudar de nome, mesmo que Harry não seja um Potter.
-
Hagrid tem razão – disse Hermione – Snape também deixou Sirius ser padrinho,
mesmo odiando-o.
- Ele
quer que a transição seja o melhor possível, Harry. Ele é um bom pai.
- Mas
eu não aceito que ele tenha virado bonzinho da noite para o dia! – insistiu
Rony – Desculpe, Harry, eu sei que você provavelmente não ia querer ninguém
falando isso de seu pai, mas ele não é boa bisca!
Harry
estava confuso ao ouvir os amigos falarem. No fundo, ele concordava com Rony,
mas Snape realmente tinha se tornado mais tratável desde que tomara
conhecimento da carta, o que tornava tudo muito confuso.
Até o
dia seguinte.
De manhã, Rony convidou os amigos para irem ao
campo de quadribol. Harry disse:
- Eu
não posso, Rony, lembra-se? Só semana que vem vou poder montar numa vassoura.
- Eu
queria ver Hermione voar um pouco. Jogar um pouco.
- Eu?!
– A garota se espantou – Mas eu sem sei jogar quadribol!
- Por
isso mesmo – disse Rony – Você vive falando mal de quadribol sem experimentar.
Venha jogar um pouco. Harry pode marcar os pontos, ou coisa assim. Er... me
empresta a Firebolt? Assim Hermione pode usar minha Cleansweep.
Os
três ocuparam a quadra numa estranha formação. E não tinham jogado sequer cinco
minutos quando Hermione, num movimento errado, desequilibrou-se, gritou e
tombou para o lado, largando a vassoura. Num impulso, Harry tirou sua varinha,
apontou-a para a amiga e gritou:
- Arresto momentum!
E Hermione
flutuou até o chão. A Cleansweep também veio descendo devagarzinho até pousar
na areia.
Harry
pulou o alambrado e correu até ela:
-
Hermione, tudo bem?
Ela
estava esfogueada, e tentava recuperar o fôlego quando Rony adernou na
vassoura, antes de pousar:
-
Hermione!
Ela se
levantou:
- Eu
estou bem. Só que faz muito tempo desde que eu subi numa vassoura. Obrigada,
Harry. Eu poderia ter me machucado seriamente.
- Você
nos deu um susto.
Rony
disse, olhando atrás de Harry:
- Não
só na gente, ao que parece.
Snape
vinha correndo elegantemente, as vestes esvoaçando mais do que nunca. E não
tinha uma cara nada boa.
- Essa
foi a maior demonstração de irresponsabilidade e inconseqüência que já vi!
Hermione
adiantou-se:
- Não
aconteceu nada, professor, eu estou –
- Não
estou falando de você, Srta. Granger. Harry Potter continua pensando que está
acima das leis e regras!
- Eu?!
Mas o que foi que eu fiz?
- Eu
avisei que tomaria qualquer atitude para garantir sua saúde, e é o que pretendo
fazer. Agindo como se não estivesse se recuperando! Quadribol, de todas as
idéias estúpidas que você poderia ter!
Harry
se avermelhou:
- Mas
eu nem cheguei perto de uma vassoura! Pode perguntar a eles!
- Seus
amigos estão aqui para lhe fazer companhia. Eles têm todo o direito de voar e
se espatifar, se assim desejarem, mas você recebeu ordens explícitas!
- Eu
não andei de vassoura!
- Você
pulou os alambrados até o chão!
- Como
sabe disso?
- Eu
tenho uma luneta voltada para você o tempo todo!
-
Estava me espionando?
-
Ainda bem que eu estava, não é mesmo? Se escorregasse, estaria reabrindo seus
ferimentos ou ganhando novos! Seus ossos ainda não sararam completamente, você
poderia ter se machucado seriamente, e Madame Pomfrey não está aqui para
costurá-lo! Por conta disso, você está confinado no seu quarto até a hora do
jantar!
- O
quê? Vai me dar detenção?
- Você
deveria estar escovando caldeirões para aprender a obedecer! Você sempre teve
um grande desrespeito pela autoridade, mas esses dias acabaram!
Harry
perdeu as estribeiras e começou a tremer de raiva:
- Só
porque é meu pai, pensa que pode mandar em mim?
A voz
de Snape tornou-se mais baixa – e mais perigosa:
- Eu
sou seu guardião e tenho o dever de discipliná-lo!
Pois
Harry só se inflamou ainda mais:
- Ah,
é? E onde você esteve toda a minha vida?! Onde você esteve quando eu ficava
trancado dentro de um armário durante horas sem comer? Ou quando eu fazia
aniversário e ninguém se importava? Ou quando os meus tios resolviam que eu
tinha que apanhar para não ser igual aos meus pais?! Onde você estava, papaizinho querido?!
Hermione
abriu a boca, espantada, e Rony franziu o cenho, ambos sem reação diante da
explosão de Harry, esperando Snape também explodir e a discussão chegar a
proporções desastrosas. Mas Snape ficou quieto um segundo, o silêncio
reverberando nos ouvidos, e Hermione viu uma expressão de dor passar por um
segundo nos olhos do Mestre de Poções, antes de sua voz se tornar mecânica ao
ordenar:
- Para
o seu quarto. Agora.
Ao que
tudo indicava, Harry tinha se dado conta do que dissera, e estava um tanto
chocado também. Deu as costas e foi caminhando apressadamente, vermelho e ainda
trêmulo, para fora da quadra. Snape suspirou profundamente, e tinha sua voz um
tanto estranha quando se virou para os dois e disse:
- Vou
tentar fazê-lo jantar.
Rony
se adiantou:
- Prof.
Snape, sentimos muito. A culpa foi nossa.
Pela
primeira vez em sua vida, Rony viu o Mestre de Poções fechar os olhos e
controlar seu temperamento. Ele disse apenas:
- Eu
esperava mais da senhorita, Srta. Granger. Estou decepcionado.
E
virou-se, deixando Rony e Hermione no meio da quadra com o maior sentimento de
culpa que eles podiam ter experimentado.
Harry
trancou-se no quarto, ainda descontrolado, até a cicatriz doía. Chutou a cama e
quase machucou o pé. Ele estava com raiva, mas também sentia culpa por ter estourado
daquele jeito. Ele tinha dito coisas muito injustas para Snape, e aquilo pesou
na sua cabeça.
Por
outro lado, ele quase esperava uma coisa assim. Aquele Snape de sempre, o
nojento, o injusto, não podia ter sumido, podia? Ele estava bonzinho demais, aquele
não era o padrão normal de comportamento de Snape. Ah, mas ele tinha mesmo dito
que ele não estava no seu normal. Essa coisa toda estava afetando Snape mais do
que Harry imaginava, e Harry começou a perceber isso também. Pior ainda: ele
não estava ajudando em nada.
Harry
sentiu que o Snape que ele conhecia – irritável, nojento, injusto e detestável
– estava dentro desse novo Snape, esse pai que ele estava tentando conhecer.
Mas havia mais em Snape do que ele estava vendo. Só que, agindo como uma criança
que tem ataques de raiva, ele jamais poderia esperar conhecer todas essas faces
de Snape.
Rony e
Hermione tinham visto tudo – o fracasso que sua família era, e isso que ela nem
tinha começado a existir direito. Ele se sentiu um pouco envergonhado por eles
terem assistido à discussão, porque o relacionamento dele com Snape não era
mais assim. Eles tinham conversado, em termos civilizados.
A
raiva lentamente estava se dissipando e dando lugar a uma terrível culpa. Ele
se lembrou de como Snape viera correndo até perceber que ele não tinha se
machucado. Depois ele tinha se irritado – preocupado com Harry.
Ele
tinha agido como um pai superzeloso. Exagerado, na opinião de Harry, mas ele
estava lá, presente. Harry tinha passado dois dias de cama e Madame Pomfrey
ainda o considerava na zona de perigo. Por isso as medidas de superproteção.
Talvez
Harry estivesse estranhando porque nunca tivera tanta atenção voltada para si
por alguém que não queria nada dele além de aceitação.
E
Harry tinha estragado tudo.
Ele saiu
do quarto, procurando por seu pai. Quando não achou, ficou frustrado, mas
reconheceu: não era à toa que seu pai evitava ficar perto dele. Ninguém gosta
de ser maltratado.
A
tarde começou a morrer quando ele se lembrou do laboratório. A porta estava
fechada e ele bateu antes de entrar.
Snape
mexia um caldeirão borbulhante.
-
Posso entrar?
Harry
recebeu um olhar e Snape lhe deu as costas. Mas em seguida passou-lhe um frasco
escuro e disse:
- Você
saiu do almoço sem tomar sua Poção Fortalecedora.
-
Obrigado – disse o rapaz, tomando o frasco todo – Quanto tempo mais vou ter que
tomar isso?
- Mais
uma semana. Madame Pomfrey me escreve todos os dias perguntando sobre sua
saúde.
Harry
ficou espantando com aquilo, mas tentou se concentrar no que tinha vindo fazer.
-
Olhe, eu... lá no campo de quadribol, eu... me excedi... Eu não queria dizer
aquilo.
- Não,
você disse exatamente o que queria. Eu estava esperando isso há mais tempo. Só
não pensei que fosse ser tão... barulhento.
-
Desculpe. É que eu achei injusto. Levei uma bronca sem ter feito nada!
Seco,
Snape lembrou:
-
Pensei que quisesse se desculpar, não continuar a briga.
- Está
bem, está bem. Desculpe.
-
Muito bem, agora me escute. Você não deve ignorar que tudo isso é extremamente
novo para mim. Como é comum em todas as atividades que abraçamos pela primeira
vez, não é incomum que num primeiro momento cometamos erros. Espero que
compreenda isso. Portanto, não vou me considerar ofendido ou desafiado por seu
desabafo. Outros podem acontecer. Eu só espero que eles possam ser evitáveis ao
longo do tempo.
Harry
não teve muita certeza de que Snape estivesse se desculpando, mas ele
reconheceu o aceno de uma bandeira branca. Deu de ombros:
- Eu
também espero que isso não aconteça mais. Mas ainda me sinto estranho.
- E
isso é natural. Mas se você quiser alguma ajuda para controlar suas emoções,
estou às ordens.
Harry
notou os cantos da boca de Snape querendo se curvar para cima de maneira
divertida. Ele não resistiu e abriu um sorriso:
- Vou
pensar no assunto. Afinal, acho que essas cenas vão se repetir.
- Eu
dispensaria a audiência.
Harry
se deu conta:
- Eu
estava tão nervoso que nem me lembrei que Rony e Hermione estavam lá. Será que
eles ficaram muito assustados?
- Eles
estavam petrificados.
- Vou
falar com eles mais tarde. Ou amanhã.
- Não
pretende subir para jantar?
Harry
ficou vermelho:
-
Pensei que poderíamos jantar aqui embaixo hoje. Eles vão entender.
Snape
também viu a bandeira branca que lhe era acenada. Disse, a voz mais suave:
- Eles
vão mandar grupos de resgate para recolher nossos corpos, pensando que nós nos
matamos com requintes de crueldade.
Harry
soltou uma risada e Snape gostou do som. Parecia ser sincero e aberto – como
Harry.
Mudou
de assunto:
- Já
que vai ficar por aí, é melhor que seja útil. Poderia me trazer o vidro de
unhas de dragão em pó do meu estoque particular? Você sabe, aquele que você
vive invadindo.
- Sabe
que essa é a maior injustiça do mundo? Eu nunca fiz isso!
- E
como você conseguiu guelricho para a segunda tarefa do Torneio Tribruxo?
-
Alguém me deu – respondeu – Mas eu não vou dizer quem.
-
Lealdade total para seus amigos, hã? Muito grifinório de sua parte. Talvez eu
possa lhe ensinar algumas qualidades sonserinas muito úteis.
- Não,
obrigado. Eu estou bem do jeito que estou. Falando nisso, eu não vou precisar
passar de novo pelo Chapéu Seletor, vou?
- Por
que deveria?
-
Porque eu sou seu filho, e você é sonserino. Eu não deveria estar na mesma
casa?
- Às
vezes você me espanta, Harry Potter. A seleção feita pelo Chapéu é definitiva,
e é referente ao indivíduo. Caso contrário, as gêmeas Patil não estariam em
casas separadas.
- Bom,
eu estava preocupado com isso.
- Não
há motivo. O fato de eu ser seu pai em nada afeta quem você é: grifinório,
apanhador do time de quadribol, estudante de notas passáveis, perambulador dos
corredores da escola nas altas horas com sua capa de invisibilidade...
- Para
mim, tudo mudou.
- Você
ainda está sob o impacto da notícia. Quando se acostumar, verá que é possível
conviver com isso.
- Eu
estou tão acostumado em pensar em Thiago Potter como meu pai. Eu cresci ouvindo
como eu sou parecido com ele.
-
Segundo a carta de sua mãe, isso não vai durar.
-
Mamãe pareceu gostar muito de você... do senhor.
- Pode
me chamar de você, Harry.
- Eu
ainda não sei direito como devo chamá-lo. Snape me parece muito formal.
- Além
de ser impreciso, afinal, é o seu nome também – Harry arregalou os olhos – Você
pode não usar o nome, mas você é um Snape legítimo. Espero em breve mostrar o
que isso significa.
- Hum,
e nós somos ricos?
Snape
deu um meio sorriso:
- Se
você está pensando em algo na linha dos Malfoy, lamento decepcioná-lo. Mas
temos alguns bens. Incluindo uma mansão da família.
- Se
você tem uma mansão, por que fica em Hogwarts nas férias? Ela fica abandonada o
tempo todo.
- Sua
avó mora nela. Ela também cuida dos negócios da família.
Harry
quase parou de respirar ao ouvir aquilo:
-
Eu... tenho uma avó? Uma avó de verdade? Sua mãe?
-
Precisamente. Ela está ansiosa por conhecê-lo. Estive com ela ontem.
-
Puxa... uma avó. Como ela é? Muita velhinha?
- Por
favor, faça o que fizer, jamais diga isso perto dela. Ela se casou jovem. Mas
ela pode aparentar mais idade depois... de um casamento difícil. Meu pai... era
um homem um tanto quanto... irascível.
- O
que isso quer dizer?
- Que
ele não era muito simpático.
- Oh –
fez Harry, lembrando-se de um fragmento de lembrança que tinha visto durante
uma aula de Oclumência. – Bom, uma coisa nós temos em comum: infâncias
infelizes.
- Ao
que tudo indica, é verdade.
-
Quando vamos conhecer a vovó?
- O
nome dela é Hisurta, e acho bom você perguntar para ela se ela quer ser chamada
de vovó. De qualquer forma, até você receber uma certificação de saúde
completa, não vamos sair de Hogwarts. Unha de dragão, por favor.
- O
quê?
- Unha
de dragão. Eu já lhe pedi há tempo. Se demorar mais, a poção vai ser toda
perdida.
- Ah.
Tá bom. Mas depois me fala mais da vovó?
- A
poção. Concentre-se, Harry.
Ele
saiu correndo para o armário dos estoques e encontrou tudo organizado, ordenado
alfabeticamente. *Provavelmente trabalho
de um aluno em detenção*, lembrando-se que ele mesmo já fizera muitas
coisas do tipo. Pegou a unha de dragão e voltou para o laboratório.
Snape
a colocou no caldeirão, que começou a emitir um vapor prateado suave. Harry
pouco se ligava para o que acontecia no caldeirão.
- E a
vovó? Já sabe sobre mim?
-
Claro que sim.
- E
ela gostou da idéia de ter um neto?
-
Muito. Ela tinha perdido as esperanças.
- Você
tem uma foto dela?
-
Harry, eu passei da idade de ter fotos de mamãe na carteira como se fosse um
trouxa.
- Será
que ela vai gostar de mim?
- Isso
você deve perguntar para ela pessoalmente. Se bem que ela já o conheça de nome,
claro.
-
Agora fiquei ansioso para conhecê-la – confessou Harry – Eu nunca tinha
pensando em avós antes. Quando a gente vai poder ir vê-la?
Snape
respondeu:
- Como
eu disse há menos de cinco minutos, quando você estiver liberado por Madame
Pomfrey.
- E se
a gente for de pó de flu? Aí eu não preciso montar na vassoura.
-
Harry, você não sai de Hogwarts até sua saúde estar completamente liberada.
- Está
bem – disse o menino, com uma careta – Entendi o recado.
Snape
deu um meio sorriso, apagando o caldeirão:
- Nada
impede que você escreva uma carta para ela, e diga que também está ansioso por
conhecê-la.
O
rosto de Harry se iluminou num sorriso:
- Boa
idéia! – e saiu correndo para providenciar tudo.
Snape
não pôde deixar de soltar um meio sorriso. O menino podia ser previsível, às
vezes.
Os
dois jantaram juntos, e Harry também escreveu uma carta para Sirius contando
todas as novidades, inclusive o fato de que ele continuava a ser seu padrinho.
Edwiges saiu com duas cartas para um entrega noturna muito especial.
Naquela
noite, Harry quase não pôde dormir imaginando como seria sua avó. A única
imagem que ele tinha era de uma mulher brigando com um homem de nariz torto – a
imagem que ele vira na mente de Snape durante uma aula de Oclumência. Depois
ele se lembrou que ela era uma Snape. Em se tratando de uma Snape, tudo podia
acontecer.
Aquela
semana parecia não ter fim para Harry, apesar de todo o tempo que ele passara
com Hermione e Rony. Eles ficaram muito espantados por Snape ter mãe, uma vez
que ele nunca a mencionara. Hermione disse:
-
Harry, dá para ver que você ficou feliz com isso.
- Eu
jamais imaginei ter uma avó. Como é isso?
Ela
disse:
- É
muito bom.
Rony
respondeu:
- É só
um velho da família. Nada demais.
-
Rony! – escandalizou-se Hermione – Harry está entusiasmado com a avó dele. Não
deve falar assim.
-
Hermione, a avó dele é mãe do Snape. O que você imagina que ela seja? Uma bruxa
velha, ora! Provavelmente ela inspirou todas as bruxas más das histórias
trouxas!
-
Rony!
Harry
disse:
- Ele
pode ter razão, Hermione. Eu já pensei nisso.
A
menina não se conformou:
- Mas
você não disse que ela estava ansiosa para conhecê-lo? E que ela gostou da
idéia de ter um neto?
Rony
insistiu:
-
Hermione, ela é uma Snape! Ela ensinou Snape a ser como é! Sabe, nojento,
babacão e seboso!
- Acho
que você está exagerando, Rony. Harry e seu pai estão se dando muito bem, dadas
as circunstâncias. Não é verdade, Harry?
Harry
teve que concordar:
-
Melhor do que eu esperava. De vez em quando ele faz algumas coisas que eu não
espero.
- Como
assim?
-
Tipo, deixar Sirius ser meu padrinho. Eu pensei que ele fosse me fazer afilhado
de Lúcio Malfoy. Ele odeia tanto Sirius. Por que me deixou ser afilhado dele?
Hermione
deu de ombros:
-
Provavelmente há mais coisas a respeito de seu pai do que sabemos, Harry. Por
isso você tem que passar mais tempo com ele e conhecê-lo bem. Eu tenho certeza
de que há bastante espaço para vocês dois chegarem a um acordo satisfatório sem
se esganarem.
-
Antes eu tinha medo – confessou Harry – Como meu pai, ele podia me maltratar
ainda mais do que como apenas aluno. Mas ele não tem feito isso.
Rony
insistiu:
- Eu
não acredito que Snape tenha virado bonzinho. Ele ainda faz Harry voltar para a
masmorra logo depois do jantar. E proibiu Harry de fazer as coisas mais
divertidas!
- Por
causa da saúde dele, Rony. Sua mãe teria feito o mesmo se você tivesse passado
o que o Harry passou.
Rony
protestou:
- Não
mesmo. Ela teria feito pior. Eu ia ter sorte de voltar a voar numa vassoura.
Harry
pensou e achou que Rony estava certo. Pais, mães – todos eles eram muito
estranhos.
Foi
naquela noite, depois do jantar, que Snape entrou no quarto de Harry e disse:
-
Madame Pomfrey acaba de me escrever dizendo que você está fora da zona de
perigo. Você e seus amigos podem começar a se arriscar em vassouras e no lago
quando quiserem.
- Que
bom.
-
Procure se conter. Madame Pomfrey está em Gales e não vai poder vir costurá-lo
se algo lhe acontecer.
- Está
bem.
Ele se
virou para ir embora, mas disse:
- E
vamos visitar sua avó assim que ela permitir.
Harry
disse, todo animado:
- Ela
me escreveu. Disse que está ansiosa para me conhecer assim que for possível.
-
Então tenho certeza de que o encontro será em breve – disse Snape – Ela sempre
cumpre o que promete.
Harry
precisou ficar mais alguns dias na expectativa. Durante esse meio tempo, ele
foi com Hermione e os Weasley até o Beco Diagonal para comprar os livros para
seu último ano. Foi um dia agradável, que eles passaram com os Weasley, e mais
tarde Harry voltou por flu até Hogwarts. Rony e Hermione foram passar o fim de
semana com a família, e Harry iria passar com a sua.
Ele
foi visitar vovó Snape.
Seu
pai preferiu ir usando pó de flu, então Harry não pôde ver o lado de fora da
mansão assim que chegou. Sacudindo as cinzas de sua capa, ele ajeitou o cabelo,
quando Snape disse:
- Ela
deverá chegar a qualquer momento. Lembre-se: viemos passar o fim de semana. Se
ela falar em passar o resto das férias...
Foi
interrompido por uma voz vinda do andar de cima:
-
Severo, é você?
Snape ergueu
a voz:
- Sim,
mamãe. Já chegamos.
Harry
nem conseguiu olhar direito a sala ricamente decorada de móveis de couro,
tapeçarias e retratos que o olhavam curiosamente. Ele seguiu Snape, que foi até
a escada. Então ele viu descendo, usando uma bengala, uma senhora um pouco mais
velha do que a Profª McGonagall, com vestes bruxas e jóias, magra, os cabelos
presos por um coque leve. Harry observou-a, o coração acelerado de ansiedade.
Notou que, apesar de usar a bengala, ela se movia com agilidade, as mãos
enrugadas segurando firmemente no apoio da escadaria de mármore.
- Oh,
finalmente – ela disse, descendo os últimos degraus – Vocês chegaram.
Bem-vindos.
Snape
beijou-lhe a fronte:
- Como
tem passado, mamãe?
-
Longe do meu filho desnaturado que não vem me visitar.
- Aqui
estou eu.
Os
olhos pretos de Hisurta Snape se voltaram para Harry e ela abriu um sorriso:
- E
você trouxe o meu neto. Eu esperava uma criança, mas é um homem. Vamos,
rapazinho, cumprimente a sua avó.
Harry
estendeu a mão, polidamente:
- Como
vai a senhora?
-
Muito melhor, agora que o vejo pessoalmente. Suas cartas me causaram uma ótima
impressão. Vamos, vamos nos sentar. Onde estão suas malas?
Snape
apressou-se em dizer, sentando-se numa poltrona:
-
Viemos apenas passar o fim de semana, mamãe. Temos que estar de volta a
Hogwarts na segunda-feira pela manhã.
- Mas
o menino está de férias. Por que ele tem que voltar com você?
-
Dificilmente está em férias – ressaltou Snape – Ele precisa da proteção de
Hogwarts contra o Lord das Trevas.
Aquilo
pareceu satisfazer a velha senhora, que disse:
-
Entendo. Isso me cheira a alguma coisa de Dumbledore, aquele velho danado.
-
Precisamente, mamãe.
- Mas
deixe-me ver meu neto – ela se voltou para Harry – Harry Potter. Quando Severo
me contou, eu tive dificuldade em acreditar.
Sem
jeito, Harry sorriu:
-
Eu... ainda estou me acostumando a isso também.
- Você
tem sorte de ter chegado à família tardiamente. Se meu falecido marido
estivesse vivo, ele teria simplesmente deserdado os dois – Severo e você.
Harry
arregalou os olhos:
- Ele
ouviu falar de mim?
Vovó
Snape estreitou os olhos e disse:
- Acho
que você o matou, rapaz.
Harry
ficou apavorado e Snape disse:
-
Mamãe, que exagero!
-
Eu... eu....
Hisurta
Snape colocou a mão no braço de Harry, sorrindo:
- Não
precisa ficar terrificado, meu jovem. Eu quis apenas dizer que Solemnus era um
grande partidário de Você-Sabe-Quem. Quando você o derrotou, foi um grande
golpe para ele. Acho que ele jamais se recuperou. Acabou morrendo de desgosto.
Por isso é que eu sou duplamente grata a você.
Harry
arregalou os olhos: ele não estava entendendo direito aquela avó. Ela parecia
ser meio maluca, mas Snape não tinha dado essa impressão. Ela deu um tapinha no
braço dele, satisfeita:
- É,
meu neto, você livrou o mundo de duas pestes.
-
Mamãe, olha a linguagem – disse Snape.
-
Estamos todos em família, Severo. Além disso, os retratos já sabem como eu
penso. Quando seu pai era vivo, eu não podia falar o que pensava em voz alta.
Mas mantive minha cabeça. Graças a ela, consegui sobreviver a seu pai. Mas
chega de falar desses assuntos desagradáveis. Aposto como Harry vai querer
conhecer a casa. Mostre a ele, Severo. Eu vou para o jardim da ala oeste, preciso
olhar meus bulbos de tulipas.
- Sim,
mamãe. Venha, Harry, vamos levar nossas coisas para cima.
Snape
subiu as escadas e Harry viu dois corredores – obviamente um era da ala oeste e
outro da ala leste. Snape o levou até seu quarto, no lado oeste da casa. Ele
viu os móveis antigos, os grandes quadros e tapetes até chegar ao quarto e teve
um choque. Ali dentro, havia uma cama de quatro postes, um pôster bruxo na
parede dos Chudley Cannons e um quadro bruxo de um piquenique em família,
provavelmente no século 18. Harry não pôde deixar de imaginar que aquele quarto
tinha sido decorado especialmente para ele. Sorriu para Snape:
- Esse
é o meu quarto?
- Se
quiser – disse ele, observando os jogadores do Cannons se movimentando
rapidamente no pôster – Tomei a liberdade de mandar trazer o pôster desse time
de quadribol. É o seu preferido, não é?
- Como
sabia?
- Eu
presto atenção aos detalhes, Harry. Essa é uma das qualidades dos sonserinos.
Bem, pronto para a grande tour pela sua nova casa?
Harry
sentiu o estômago afundar. Sim, aquela casa era dele também, e ele não tinha
percebido isso. Ele ainda teria que pensar muito até aceitar totalmente as
implicações de ter uma nova família.
-
Harry?
Dando-se
conta de que tinha ficado parado, Harry logo se corrigiu:
- Sim,
sim, claro.
Snape
começou a mostrar os quartos do andar de cima, e em pouco tempo Harry ficou com
medo de se perder dentro da casa. Embaixo, a coisa parecia um pouco mais clara,
com o salão de jantar, a sala de estar, a sala de estar íntima, a biblioteca, o
estúdio, o escritório da vovó e os jardins. Eles foram encontrar vovó Snape no
jardim, cuja varinha em riste revestia com gelo um canteiro onde a terra estava
revolvida.
- Os
bulbos precisam de temperatura fria, e esse verão pode acabar com eles –
explicou ela, recolhendo sua varinha e andando pelas demais áreas – Você gosta
de plantas, Harry?
- Eu
estudo Herbologia.
- São
uma grande terapia. Aprende-se muito cuidando de plantas. Falando nisso,
Severo, eu pedi que Twinky colhesse suas ervas e deixasse no seu laboratório,
caso você fosse precisar levar alguma coisa para Hogwarts.
Snape
disse:
-
Estão colhidas?
-
Foram retiradas essa manhã. Eu sei que você gosta delas bem frescas.
Ele
disse:
-
Preciso começar a processá-las imediatamente, ou elas perderão suas
propriedades mágicas.
Hisurta
sorriu, os olhos negros faiscando:
-
Então vá para o porão, meu filho. Eu e Harry estaremos bem.
Snape
soube naquele instante e Harry desconfiou que vovó Snape tinha armado para os
dois ficarem sozinhos. Com as capas esvoaçando dramaticamente, Snape entrou
para tratar de suas preciosas ervas.
- Ah,
ele é tão previsível... Mas agora estamos mais à vontade, não é, Harry?
- Sim,
senhora. Er... Como quer que eu a chame? Madame Snape, Vovó Snape... Sra. Hisurta?
Vovó
Snape riu-se:
- Se
quiser me chamar de vovó, está tudo bem, Harry. Eu acho que estou acostumada à
idéia. Mas só que você é um homem feito, não um netinho para eu contar
historinhas! Mas eu quero saber de tudo, hein?
-
Tudo?
- Caso
você arrume uma namorada e pretenda me dar bisnetos, eu tenho que ser avisada
com antecedência. É preciso um preparo psicológico para certas coisas.
- Oh –
disse Harry – Está bem.
-
Espero que nós sejamos muito unidos. Nossa família não é muito grande, então é
importante que fiquemos juntos. Severo mantém distância por medo que eu entre
na luta contra Você-Sabe-Quem. Você sabe que seu pai tem um trabalho muito
importante nessa luta, não sabe?
- Sei.
Mas isso não deveria ser secreto?
-
Exato. Para todos os propósitos práticos, Severo e eu não nos falamos desde que
ele se juntou aos Comensais da Morte. O que não está longe da verdade. Só
recentemente eu vim a saber que ele realmente está do outro lado. Eu fiz de
tudo para ele não se juntar a eles, mas Solemnus foi peremptório. Foram dias
muito difíceis até seu pai finalmente concordar em se unir a Você-Sabe-Quem.
Solemnus o coagiu de todas as maneiras possíveis. Seu avô era um homem
terrível, Harry. Eu sempre tentei criar Severo com carinho, mas seu avô me
tolhia as ações. Seu pai praticamente não teve infância, e foi forçado a
aprender todas aquelas mágicas das trevas. Ele também me tratava muito mal. No
dia em que Severo se juntou aos Comensais, ele me prendeu no quarto, e lá me
deixou três dias, com ordem para os criados apenas me levarem comida. Ele temia
que eu convencesse Severo a desistir. Eu quase consegui, mas no fim as ameaças
dele prevaleceram.
Harry
disse:
- Foi
isso que o separou de minha mãe.
Vovó
Snape pôs-se a caminhar pelos canteiros floridos, dizendo:
- Eu
não sei muito sobre sua mãe, só o que apareceu nos jornais da época de sua
morte. Eu jamais soube que Severo sequer teve uma namorada. O que você sabe
sobre ela?
- Ela
nasceu numa família de trouxas. Eu vivia com a irmã dela, que tem pavor de
bruxos.
-
Severo me contou o que aconteceu com você na semana passada – o rosto dela
adquiriu uma afabilidade forçada - Depois deixe o endereço deles, para eu dar
uma visitinha, quem sabe agradecer por terem cuidado de você esses anos todos.
Harry
sentiu que esse não era o verdadeiro objetivo da visita. Ele também sentiu que
Vovó Snape não era uma pessoa para ser subestimada.
- Isso
não vai ser necessário, obrigado.
- Mas
acho que isso é necessário. Afinal de contas, se sua mãe tivesse procurado
Severo quando estava grávida, seu avô teria expulsado vocês três – se não
fizesse coisa pior. Seu pai me disse que você é um grifinório legítimo, e ela
também era.
- É
verdade.
- Bom,
eu mesma era de Corvinal. Mas isso faz muito tempo, você não vai querer saber
de histórias antigas.
Harry
ficou espantado:
- Eu
pensei que a senhora fosse Sonserina.
- Eu?
Como você acha que mantive minha cabeça durante todos esses anos, hein?Ah, mas
é claro que fui pegando uma coisinha ou outra dos sonserinos. Severo teria se
dado bem em Corvinal. Ele é muito inteligente, sempre foi, desde pequeno. Mas
até que foi bom. Solemnus teria tido uma síncope se ele não tivesse entrado em
Sonserina.
- Como
a senhora foi se casar com ele, se ele era um homem tão terrível?
Ela se
riu:
- Ah,
vocês jovens às vezes se esquecem dos costumes antigos. Foi um casamento
arranjado. Sabia que a família Snape não produz mulheres há cinco gerações? Você
mesmo é prova da tradição. Nem sempre bruxas de sangue puro estão disponíveis
para casar com os Snape homens, então era costume fazer arranjos com outras
famílias de não tão alta estirpe, como a minha. Sou filha de bruxo com uma
trouxa. Meu pai se esforçou muito pelo meu casamento. Eu não queria casar com
Solemnus de jeito nenhum, mas minha família queria muito por causa do prestígio
dos Snape – eu soube mais tarde que houve troca de ouro envolvida na transação.
De qualquer modo, isso pertence ao passado. Eu sobrevivi ao casamento e hoje
posso me dar ao luxo de fazer o que eu quiser por minha família. E isso inclui
você, Harry.
- A
senhora preferiria um neto mais criança? Ou um não tão famoso?
Ela o
olhou seriamente e disse:
-
Harry, eu estou lhe dando as boas-vindas à família. Não importa se você tem
essa cicatriz na testa ou não. Para mim, você é filho do meu filho, só isso.
Espero deixar isso bem claro. Sou uma mulher idosa, tenho as minhas manias, e
uma delas é tratar as pessoas pelo que elas são. Sei que você optou por não
mudar seu nome para Snape, e não posso culpá-lo por não querer o nome: a
família está cheia de bruxos das trevas. Mas você é um Snape e vai ser
reconhecido como um, tanto quanto eu sou uma Snape.
-
Obrigado. Às vezes é difícil fazer as pessoas olharem além da cicatriz.
- Não
precisa se preocupar que não vou exibi-lo por aí para as demais famílias
bruxas. Na minha idade, eu não freqüento mais a sociedade. De vez em quando
alguém vem me visitar para ver se ainda estou viva. Mas isso não é nem uma vez
por mês.
-
Então a senhora vive sozinha?
- E
estou muito bem assim. Os criados me ajudam com a casa, e eu cuido dos
negócios. Talvez eu possa interessá-lo nos negócios da família, Harry. Afinal,
um dia isso tudo vai ser seu. O que você pretende fazer quando deixar Hogwarts?
- Eu
quero cursar o treinamento para auror.
- Ah,
mas meu neto tem mania de herói! – Harry ficou vermelho – Eu disse isso no bom
sentido, Harry. Não quero constrangê-lo. Você deve fazer de sua vida o que
achar melhor.
Ela se
sentou numa varanda de frente para os jardins. Harry se sentou na cadeira ao
lado.
- Aqui
é bonito. Não imaginei que fosse tão bonito.
- Fico
feliz que goste. Severo me contou que você é ofidioglota. É uma habilidade
rara. Gostaria de ter uma cobra como bicho de estimação?
Harry
disse:
- Eu
tenho um bicho de estimação. É uma coruja chamada Edwiges. Ela não ia se dar
bem com a cobra.
- Oh,
não, claro que não. Bem, foi uma idéia. Eu gostaria de lhe dar um presente.
Soube que seu aniversário foi há pouco tempo.
- Não
precisa não, vovó. Eu já recebi um monte de presentes nas últimas semanas.
- Você
é um bom menino, Harry. Vou gostar de tê-lo como meu neto. Diga-me: você é bom
na escola? Gosta de Poções?
Harry
deu de ombros:
- Eu
não tenho talento para Poções. O Prof. Snape sempre me deixou em detenção por
causa disso.
-
Severo lhe deu detenção uma vez?
- Não,
na verdade foi bem mais de uma vez.
- E
você lhe deu motivo?
- Bem,
nem sempre. Ele não gostava muito de mim, por causa de meu... er... quero
dizer, por causa de Thiago Potter.
Vovó
Snape parecia cada vez mais espantada:
-
Então ele era injusto com você?
Harry
tentou consertar:
- Mas
isso foi antes! Agora ele não é mais assim.
- Oh,
meu pobre rapaz – disse a avó – Severo puxou um pouco do temperamento do pai.
Ele é teimoso quando quer. Espero que as coisas entre vocês tenham melhorado.
-
Muito – garantiu Harry apressadamente – Muito mesmo.
-
Tenho certeza de que isso vocês poderão resolver com o tempo. Mas todo esse
negócio de segredo... Isso pode ser muito ruim. Quando se guarda um segredo,
muita coisa pode se imiscuir em torno dele. Não, um segredo sempre arrasta
consigo um bando de outras conseqüências.
- Mas
a senhora guarda um segredo. A senhora sabe das atividades dele junto aos
Comensais.
- E
não é um segredo fácil de guardar, tanto é que nós nos falamos muito pouco, meu
filho e eu. Espero que com você as coisas sejam diferentes, Harry. Mas Severo
mudou totalmente desde que entrou em contato com Você-Sabe-Quem. Primeiro, ele
resistiu. Ah, sim, ele resistiu a Solemnus, mas ele era um homem terrível.
-
Mamãe disse que ele estava sob muita pressão. Ela lutava contra Vol- contra Você-Sabe-Quem.
A
velha se espantou:
- Você
pronuncia o nome dele?
- Sim.
Medo do nome só aumento o medo da coisa em si.
Ela
deu uma risadinha:
- Está
aí alguma coisa que Dumbledore diria. Mas eu não pronuncio o nome dele. Eu o
odeio com todas as minhas forças. Esse desgraçado foi o motivo de Severo ter se
tornado uma pessoa difícil. Ele não queria se tornar um Comensal, mas o pai
tanto o pressionou que o fez se unir àquele homem horrível. Severo o desafiou
abertamente. Mas eu jamais soube o que o fez desistir. Quase morri de desgosto.
Fiquei sem falar com ele. Até que um dia eu descobri por acaso que ele era um
espião. Mas nossa relação já estava desgastada.
- Eu
sinto muito.
- Oh,
que amor. Hoje voltamos a nos falar, mas é muito raro. Ele não me visita há
dois anos. Se não fosse você, acho que ele não teria vindo.
Num
impulso, Harry levou a mão à testa, pois sua cicatriz começou a arder. Mas era
diferente de antes. Parecia que havia uma dupla ardência.
- O
que foi, Harry?
- Nada
– mentiu ele – A cicatriz às vezes arde.
A
esperta Vovó Snape sentiu que havia algo mais ali, mas resolveu não insistir.
Ela começou a falar que o almoço seria servido logo, mas Snape voltou do
laboratório, segurando o braço e disse:
- Surgiu
um imprevisto. Precisarei sair e não sei quando voltarei.
Harry
arregalou os olhos, pois ele sabia qual era o imprevisto: um chamado de
Voldemort. Ele convocara seus Comensais através da Marca Negra, por isso Snape
segurava o braço.
Vovó
Snape indagou:
- Tem
certeza que não pode adiar? Eu esperava um almoço em família.
-
Lamento, mamãe, mas não posso adiar.
- Está
bem, meu filho. Tenha cuidado.
Snape
se virou para Harry:
- Faça
companhia à sua avó e não a aborreça.
Harry
entendeu aquilo como sendo um aviso para não contar que ele sabia aonde Snape
estava indo. Harry assentiu e o Mestre de Poções virou-se indo para a sala, de onde
Aparatou sem demora.
Harry
passou o dia praticamente sozinho com sua avó, preocupado com Snape, pois sua
cicatriz não parava de doer. Ele podia jurar que também seus músculos doíam,
mas procurou não pensar nisso. Os dois almoçaram cedo e passaram a tarde
conversando na elegante sala de estar íntima.
Vovó
Snape trouxe a única foto de Snape que ela tinha conseguido salvar da fúria de
Solemnus. Harry olhou a foto dos três, ansioso. Snape deveria ter mais ou menos
a sua idade, e era magro, com os cabelos negros compridos e sedosos, uma
expressão dura no rosto sem marcas. Solemnus era um homem alto, de cabelos
pretos que começavam a ficar brancos, também magro, com o nariz em forma de
gancho e olhos cruéis. Hisurta aparecia como uma mulher bem mais jovem, magra,
de cabelos castanhos compridos e olhos escuros tristes.
- Foi
a única foto que eu consegui esconder – disse Vovó Snape – Todas as fotos de
Severo quando bebê foram queimadas num acesso de raiva. Precisava ouvir os
gritos.
Harry
quis saber:
- Não
há retratos na casa? Digo, quadros grandes, desses que se mexem.
-
Solemnus só deixou um retrato de si mesmo, que eu mantenho no porão. O retrato
vive reclamando aos gritos que está pegando poeira, e aí mesmo é que eu o deixo
sozinho e empoeirado. Nem os elfos domésticos vão vê-lo. Eu deveria tê-lo
queimado. Eu recomendo que você evite o porão, Harry. Se ele souber quem é
você, vai enchê-lo de desaforos.
-
Obrigado pela dica – sorriu Harry – Sabe, a casa não é bem o que eu esperava.
Eu estive na casa de meu padrinho, e ela é muito mais assustadora.
- Seu
padrinho?
-
Sirius Black.
Vovó
Snape quase teve um ataque:
-
Quem?! Mas ele é o braço direito de Você-Sabe-Quem! Um assassino perigoso!
- Não,
vovó, isso não é verdade. Sirius é inocente. Ele nunca matou ninguém nem traiu
minha mãe.
- E
ele é seu padrinho?
- Isso
mesmo. Meu pai deixou que ele continuasse a ser meu padrinho, mesmo que eu não
seja mais um Potter. Sirius e Thiago eram grandes amigos, mas meu pai odiava os
dois.
- Eu
nunca soube que Severo tivesse amigos. Mas aquele garoto Malfoy achava que seu
pai ia ser um bruxo das trevas. Ele foi usado como incentivo para fazer Severo
se juntar aos Comensais. Lucius Malfoy.
Harry
fez uma careta:
- Eu
não sei se eles são amigos, vovó. Talvez meu pai não possa se dar ao luxo de
ser inimigo dos Malfoy.
- Com
o prestígio e influência deles, bem poucos podem se dar a esse luxo, Harry. Sei
que eles têm um garoto em Hogwarts. Você o conhece?
-
Draco Malfoy. Eu o conheço. Somos inimigos declarados.
- Hum,
não é uma atitude muito inteligente, Harry.
Harry
disse, decidido:
- Eu
não vou ser amigo de Malfoy nenhum! O pai dele tentou me matar três vezes!
Draco também vive me desafiando na escola!
- Ah,
bom, isso é diferente – assentiu Hisurta – Ainda assim, nós temos negócios com
eles. Quando você e Severo anunciarem o laço de parentesco, essa relação pode
mudar. Para pior ou para melhor, ainda não sabemos.
E foi
nessa hora que Harry sentiu. Vinda aparentemente do nada, a dor que começou na
sua cicatriz se espalhou por todo o corpo. Ele não se apercebeu que começou a
gritar, ou que seu corpo começou a ter espasmos, ele só se deu conta do que
estava acontecendo quando se viu no chão, os gritos cessando por um momento e
era ele quem estava gritando, a avó muito pálida a encará-lo no chão da sala
íntima.
-
Harry! Harry, o que está havendo? Fale comigo, meu neto!
Mas
Harry não podia responder. Seus olhos não viam sua avó, mas uma outra cena, uma
cena que ele não queria ver.
Ele
via Snape suspenso no ar, os braços acima da cabeça, presos por duas grossas
correntes de aço presas a uma barra de ferro. Um filete de sangue corria-lhe do
lado esquerdo do lábio, e ele parecia estar em grande dor. Ele estava numa
floresta, e Harry soube instantaneamente que se tratava da Floresta Proibida.
Um
jato de luz vermelha vindo de baixo atingiu Snape, fazendo Harry estremecer de
dor enquanto seu pai gritava, a voz já rouca. E Harry sentiu como se estivesse
falando, numa voz fria:
- Vejo
em sua mente que você tem enganado seu mestre, Severo. Você me traiu e
tornou-se um espião para aquele tolo Dumbledore. Mais do que isso, você
conseguiu esconder isso de mim por muito tempo. Por esses crimes contra o Lord
Das Trevas, você vai morrer lentamente e com muita dor. Crucio!
Dor
lancinante percorreu o corpo de Harry, enquanto Severo se contorcia de dor, os
braços retorcidos, o rosto crispado. A cicatriz de Harry doía brutalmente, seus
músculos também, ele sentia o que Snape sentia – e estava olhando tudo com os
olhos de Voldemort, como sempre acontecia. Ele via os Comensais dispostos em
círculo, olhando para Snape, que estava acima dele, e suas máscaras reluziam no
entardecer.
Tudo
era tão semelhante ao que Harry tinha vivido no ataque a Sirius – e Harry quase
tinha perdido o seu padrinho naquela ocasião. E se fosse outra cilada? Estaria
Voldemort querendo atraí-lo usando Snape?
Não,
não deveria ser! Como ele saberia que Snape poderia ser usado para atraí-lo?
Não, a visão era verdadeira.
- Mas
espere!... – Harry chegou perto de Snape, cujos músculos ainda espasmavam de
dor – Você ainda tem mais surpresas para mim, não tem, meu caro Severo? Sim, eu
vejo seu controle falhando. Você tem mais segredos para revelar a Lord
Voldemort, não tem? Eu vou descobrir. Só mais um pouco e todos os seus segredos
serão meus!....
-
NÃÃÃOO!!
Abruptamente,
a visão voltou ao normal, embora seu corpo ainda sentisse os efeitos da Maldição
Cruciatus. Ele ouviu a voz aflita de sua avó:
-
Harry? Harry, pode me ouvir? Oh, por Merlin, Harry, o que há de errado com
você?
Harry
conseguiu se sentar e viu que estava no chão da sala de estar íntima, quase
embaixo de uma mesinha de madeira com detalhes dourados. O coração batendo
descompassadamente, o peito arfando, ele disse:
-
Voldemort!... Acho que ele pegou meu pai!
- O
quê? Como você sabe?
- Eu
tive uma visão! Minha cicatriz. Voldemort descobriu que papai é espião! Ele vai
matá-lo!
-
Mas... como...?
-
Tenho que impedir! Ele está quase descobrindo que somos parentes! Tenho que ir
até lá!
-
Harry, não! Você está doente! Está até meio verde!
-
Vovó, ele vai matar o papai! Preciso impedir isso! Só eu posso lidar com
Voldemort!
- Não
mesmo! Vou avisar Dumbledore! Ele saberá o que fazer. Você fica quieto!
- Não
tenho tempo para isso! Tem alguma vassoura que eu possa usar?
- Tem
uma antiga vassoura de Severo guardada no porão – disse Vovó Snape – Mas você
não está nada bem, Harry! Deve se deitar e –
Harry
se impacientou:
- Não
há tempo! Desculpe, vovó, mas eu explico depois! Agora preciso ir. Onde fica o
porão?
-
Twinky! – gritou Vovó Snape – A vassoura de Severo! Preciso dela agora!
O elfo
entregou a vassoura a Harry, que montou nela ali mesmo e abriu a janela. Harry
notou que era realmente antiga – mas muito boa. No fundo, porém, ele desejou
que sua Firebolt estivesse com ele.
Vovó
escancarou a janela que dava para o jardim, dizendo:
-Para onde você vai?
- Para
a Floresta Proibida. É lá que Voldemort está.
- Vou
avisar Dumbledore imediatamente. Tenha cuidado, meu neto!
Harry
queria dizer que ia ter, mas ele enfrentaria Voldemort. Não havia garantias
nessas circunstâncias.
Como
um canhão, Harry ganhou os céus e voou como se estivesse perseguindo um pomo de
ouro particularmente traiçoeiro. O coração acelerado, sua cabeça passava mil
imagens do que estaria acontecendo na Floresta Proibida.
Ele
demorou mais do que gostaria e mais uma vez desejou ter sua Firebolt.
Durante
todo o percurso, Harry sentiu um nó de culpa a lhe embrulhar o estômago. Seu
pai havia sido revelado como espião, tudo porque ele estava fora de seu normal
– e o motivo era Harry. A culpa o corroia e fazia-o tentar voar cada vez mais
rápido.
Pareceu-lhe
demorar quase o dia inteiro, embora tenha voado durante horas, o vento frio
cortando-lhe os ossos. Ele só diminuiu a velocidade quando avistou as altas
torres do Castelo de Hogwarts e a imensidão escura da Floresta Proibida à
noite. Ele circundou a Floresta do alto, tentando vislumbrar alguma coisa na
noite fechada e sem lua.
Finalmente,
ele se deu conta de um ponto entre as árvores onde havia o brilho de tochas. Manobrando
a vassoura com cuidado, ele conseguiu pousar e logo se dirigiu à fonte de luz,
escondendo-se atrás das árvores.
Escondido,
agora do chão, o quadro que ele viu parecia ser ligeiramente diferente da visão
que teve na mansão de sua família. A única coisa que não mudava era a
disposição dos Comensais da Morte em círculo, agora portando tochas que faziam
suas máscaras brancas ainda mais fantasmagóricas na luz bruxuleante. O coração
de Harry começou a acelerar quando ele procurou Snape – e ele sentiu um frio na
espinha ao percebia que poderia ter caído numa armadilha.
Mesmo
assim, ele foi para trás de outra árvore, chegando mais perto, sempre
procurando por Snape. E encontrou.
Seu
pai estava estirado no chão, com o braços retorcidos, as vestes em frangalhos.
Podia-se ver que tinha sido atingido por dezenas de feitiços e maldições, pois
estava cheio de cortes e marchas roxas. Ao ver o estado de seu pai, Harry teve
que se controlar para não denunciar sua posição.
Ele
estava imaginando onde estaria Voldemort, quando uma voz fria surgiu do centro
do círculo:
- Ora,
ora, ora. Nosso convidado de honra finalmente está entre nós. Mostre-se para
Lord Voldemort, Harry Potter.
Harry
sentiu o frio na espinha voltando, e seu coração perdeu o ritmo. Sabendo que
não adiantava mais se esconder, ele saiu de trás da árvore e viu os Comensais
abrirem espaço para que ele passasse. Harry logo estava no centro do círculo,
ao lado de Snape, que o encarava, alarmado, os dois em frente a Voldemort.
- Eu
sabia que você tentaria vir salvar seu papai querido – Harry arregalou os olhos
e Voldemort sorriu – Eu conheço o segredo de seu pai e sua mania de ser herói.
Sim, esse foi um dos primeiros segredos que eu extraí da mente de seu pai. Esse
foi um segredo que ele não conseguiu esconder de mim por muito tempo, o seu
papaizinho querido, esse traidor.
Harry
gritou:
-
Solte meu pai! É a mim que você quer!
- Você
tem mesmo um desejo de morrer, não é, garoto? Eu cuidarei de seu pai no tempo
certo – Voldemort abriu um sorriso reptiliano para Harry – Primeiro quero
acertar umas contas com você, Harry Potter.
Sem
perder tempo, Harry puxou sua varinha, gritando:
- Expelliarmus!
A
varinha voou da mão de Voldemort, que rosnou:
-
Maldição! - os Comensais se agitaram e seu chefe os acalmou – Ninguém
interfira. Isso é entre mim e o garoto metidinho.
Foi
então que Snape atacou. Mal se agüentando nas pernas, ele se jogou contra Voldemort,
gritando:
-
Deixe meu filho em paz!
Os
dois se embolaram no chão, os Comensais cada vez mais agitados, Harry aflito,
de varinha a postos, e olhos fixos por qualquer chance de atingir Voldemort.
Ele sabia que tinha de enfrentar Voldemort de uma vez por todas, e só ele podia
fazer isso – estava na profecia.
Por
isso ele se meteu no meio da briga entre Snape e Voldemort. Afinal, só ele
podia resolver essa parada.
-
Largue o meu pai!
E foi
bem a tempo. Harry foi capaz de separá-los, mas sua distração fez Voldemort
recuperar sua varinha. Os Comensais vibraram diante dessa vitória. Harry queria
verificar como estava Snape, já que ele tinha simplesmente rolado para o lado e
ficado imóvel, mas ele queria manter um olho em Voldemort.
- Pai?
Pai, pode me ouvir?
Voldemort
sorriu de maneira nojenta:
- Não
se preocupe, Harry. Logo você e seu papaizinho querido estarão juntos no lugar
par aonde vão todos os que desafiam Lord Voldemort. Agora solte sua varinha.
Não queremos que elas se enfrentem como da última vez, não é mesmo?
Harry
sabia que se ele soltasse sua varinha estaria condenado, perdido e indefeso.
Por isso ele hesitou, procurando freneticamente em sua cabeça uma saída para
aquela situação.
Snape
se mexeu no chão, e Harry percebeu o movimento, aliviando-se ao sentir que ele
estava vivo. Infelizmente Voldemort também percebeu:
- Se
você largar sua varinha, Harry, prometo que seu pai terá uma morte rápida e sem
dor.
-
Deixe-o em paz!
-
Lamento não poder fazer isso, Harry. Ele me traiu. Deveria saber que Lord
Voldemort não tem piedade para traidores e espiões. Agora solte sua varinha!
Harry
hesitou e foi nesse momento que tudo aconteceu.
Uma
série de estalidos se ouviu, e dezenas de pessoas Aparataram na Floresta: eram
aurores e membros da Ordem da Fênix. Os Comensais começaram a reagir e Harry
viu que Voldemort se preparava para fugir na confusão. Ele apontou a varinha:
- Tarantallegra!
As
pernas do Lord das Trevas começaram a se mover numa dança frenética, e Harry
achou que o efeito seria cômico se ele não estivesse tão cheio de adrenalina.
Ainda assim, Voldemort mirou a varinha contra Snape e começou a pronunciar:
- Avada –
- NÃO!
– gritou Harry – Avada Kedrava para
você, monstrão!
O
feitiço atingiu Voldemort em cheio, uma luz verde que envolveu seu peito, fazendo-o
arregalar os olhos e voltá-los para Harry, surpreso. Ele obviamente não
esperara por aquilo.
Como
se observasse em câmara lenta, Harry acompanhou quando o bruxo das trevas abriu
a boca, como se estivesse sem ar, e caiu de joelhos, os olhos vermelhos agora
incapazes de se fixar em alguma coisa. Enquanto a batalha corria sangrenta,
Voldemort tombou, sem vida e finalmente derrotado.
Lord
Voldemort tinha acabado para sempre.
Harry
não vira toda a cena, porque ele tinha se ajoelhado no chão ao lado de Snape,
que jazia imóvel, de barriga para baixo:
- Não!
Por favor, não morra! Não esteja morto!
Ele o
desvirou e viu o rosto sujo de poeira, lama e sangue – não muito diferente do
próprio Harry. Snape respirava com dificuldade, e Harry percebeu que uma lágrima
caía ao ver seu pai naquele estado.
Mas
ele estava bem, ele estava vivo!
Uma
mão tocou o ombro de Harry e ele se virou. Quase teve um ataque ao ver quem
era:
-
Vovó?! O que a senhora está fazendo aqui?
A Sra.
Snape franziu o cenho:
- Você
realmente acha que eu iria ficar esperando em casa enquanto toda minha família
saía para enfrentar Você-Sabe-Quem? Fui buscar reforços!
-
Vovó, o papai –
-
Vamos levá-lo já para St Mungo's. Ele deve ficar bem, não se preocupe. Estou
muito orgulhosa de vocês dois.
Dumbledore
chegou-se até eles:
- É
melhor vocês dois saírem agora. Há uma busca em progresso pelos Comensais que
fugiram pela Floresta. Vamos transportar Severo para St. Mungo's agora mesmo.
-
Prof. Dumbledore – perguntou Harry –, o senhor acha que Voldemort foi embora de
vez?
- Com
certeza, Harry – disse o diretor de Hogwarts – A profecia foi cumprida.
Voldemort está morto de uma vez por todas.
Vovó
Snape abriu um sorriso cheio de dentes:
-
Adorei! Ele virou Você-Sabe-Quem-Era!
O
Grande Salão estava todo enfeitado e iluminado para o banquete de começo de um
novo ano. Os alunos do primeiro ano já tinham sido sorteados em suas casas e o
Prof. Dumbledore se ergueu, pedindo a atenção de todos ao final do banquete:
-
Bem-vindos a Hogwarts! Antes de começar o novo ano, gostaria de dizer a vocês
que esse nosso banquete foi especial em comemoração ao fim de uma etapa
horrível no mundo bruxo. A derrota de Voldemort deverá ser comemorada de várias
formas ao longo do ano, incluindo a vinda de times de quadribol profissionais
para partidas de demonstração aqui na escola. Houve participação de professores
e alunos de Hogwarts na batalha final, como vocês já devem saber, mas eu
pediria aos mais curiosos que refreassem seus impulsos de perguntar os
envolvidos, pois nem mesmo o Profeta
Diário conseguiu esse depoimento.
Rony
disse aos colegas mais próximos:
- Isso
porque Dumbledore não deixou nenhum repórter entrar em Hogwarts para
entrevistar Harry.
Dino
Thomas indagou:
-
Harry, por que você ficou em Hogwarts no verão? Seus parentes não são trouxas?
- Foi
para fugir dos repórteres? – quis saber Simas Finnegan.
Harry
sorriu e disse:
- Bom,
na verdade, foi para passar mais tempo com meu pai.
Os
colegas mais próximos ficaram olhando, chocados, para o
Menino-Que-Matou-Voldemort. Rony quis saber:
-
Falando nele, ele se recuperou bem dos ferimentos de batalha?
- Oh,
sim – respondeu Harry – Ficou em St. Mungo's só dois dias, mas teve que ficar
de cama quase uma semana. O mau humor dele estava muito além de tudo que eu já
vi.
Os
alunos continuavam todos boquiabertos, achando claramente que Harry é quem
deveria ir para St; Mungo's.
- Mas
Harry – tentou dizer Simas – Seu pai... ele morreu, Harry.
- Não,
Simas, quem morreu foi um homem chamado Thiago Potter, que era casado com minha
mãe – As pessoas mais próximas já olhavam abertamente – Meu verdadeiro pai é o
Prof. Snape.
-
Snape?! Desde quando?
Harry
ia responder mas foi interrompido por Neville, muito pálido, que quis saber:
-
Harry, diz que isso não é verdade! Não pode ser verdade!
Os
cochichos começaram a tomar conta da mesa da Grifinória, bem como alguns gritos
indignados de Gina, que começou a bater com as costas da mão no irmão mais
velho:
- Como
você não me contou isso? Desde quando você sabe?
- Desculpe,
Gina, mas Harry queria manter em segredo.
- Eu
sou sua irmã! Por isso todo mundo vivia cochichando lá em casa! Todo mundo
sabia, menos eu!
Harry
teve que contar aos colegas de casa a verdade sobre sua família, e toda a mesa
comentou o assunto, que agora começava a se espalhar para as outras mesas.
Hermione ficou confusa:
- Mas
você não queria segredo?
- O
segredo era por causa de Voldemort. Agora que ele morreu, não tem mais sentido
esconder isso.
Naquele
momento, o banquete se encerrou. Os monitores conduziam os alunos rumo às suas
casas, e o burburinho era visível pelos corredores da escola.
Contudo,
pouco antes de chegar às escadas que levavam à Torre de Grifinória, uma voz
majestosa se ouviu:
-
Potter, um minuto, por favor.
Ao ver
Snape ali, vários grifinórios começaram a cochichar ao subir as escadas. Harry
ficou para trás, parado ao lado do pai. Quando os alunos finalmente saíram do
alcance, Snape quis saber:
- E
então?
Harry
sorriu:
- Eu
contei para duas pessoas, e a escola inteira já sabe. Amanhã de manhã a
correspondência já deve estar chegando sobre o assunto.
-
Excelente. O Feitiço da Paternidade será revelado amanhã. Todos vão saber ao
mesmo tempo. Não ficaria impressionado se o Profeta
Diário tentasse sair com uma edição extra. Felizmente em Hogwarts estamos a
salvo dos repórteres.
- E a
vovó? Eles não vão importuná-la?
Snape
deu um risinho:
- Se
algum repórter conseguir chegar perto dela, vai ter sorte se souber o que o
atingiu quando ela terminar com ele.
Harry
teve que rir, porque era verdade.
- Não
se engane – disse seu pai – Ela está contando com uma visita nossa no primeiro
fim-de-semana de Hogsmeade.
- Mas
é só daqui a dois meses.
-
Antes disso, ela pretende vir à escola para assistir ao primeiro jogo de
quadribol. Será daqui a um mês.
-
Sério?
- Ela
me pediu para confirmar a data assim que possível. E por falar nisso, é uma
surpresa. Sinta-se surpreendido quando ela vier.
-
Certo. Vou deixar isso de fora quando escrever para ela.
-
Muito bom – disse Snape – Entendo que não possamos nos ver tanto quanto no verão,
mas me deixe a par de como você vai indo.
- Tudo
bem. Eu não vou sumir, pai.
Snape
deu um raro sorriso. Desde que Harry derrotara Voldemort, ele passara a
chamá-lo de pai – e aquilo tivera um impacto que Snape jamais tinha sonhado.
Durante alguns dias ele localizara o espelho de Ojesed dentro da escola, e a
imagem do espelho trouxera uma família completa: Snape vira a si mesmo, Lílian
e Harry, com cerca de três anos, no colo; em outra ocasião, ele vira Harry com
cerca de seis anos, abraçado a si, sorrindo. Ele gostaria de ter podido
acompanhar o crescimento de seu filho, de ouvi-lo chamá-lo de papai desde
pequenininho.
Mas
ele não reclamava que seu filho fosse um rapaz de 17 anos, salvador do mundo
bruxo e agora o chamava de pai com naturalidade.
- É
melhor você subir agora – disse o Mestre de Poções – Seus amigos vão ficar
curiosos.
- Está
bem. Boa noite, pai.
- Boa
noite, filho.
Snape
observou Harry acelerar o passo para subir na escada antes que ela resolvesse
se mexer. O ano letivo que começava seria um dos mais marcantes da vida do
diretor de Sonserina, tanto quanto para Harry. Os dois ainda tinham muito que
se acertar e se adaptar, mas entre eles havia uma imensa vontade de fazer com
que aquilo desse certo. Em menos de três meses, Snape vira sua vida mudar
completamente: antes amargo e solitário, ele tinha se reencontrado com a
própria mãe graças a um filho que sequer sabia que existia – e agora ele tinha
uma família. Harry também, e Merlin sabia que o menino queria e precisava de
uma família. Só a carência de Harry por pais de verdade explicava a rapidez com
que ele tinha aceitado seu odiado Professor de Poções como pai.
E isso
ele era, e seria dali para frente, para valer.
Vendo-se
sozinho no corredor, Snape tratou de voltar para as masmorras, a fim de
descansar para enfrentar seus alunos cabeças-ocas de manhã.
De
alguma outra realidade, Lílian Potter acompanhou-o com os olhos e sorriu,
satisfeita.
Fim